As eleições legislativas de domingo na Argentina são um convite à meditação. O presidente Carlos Menem sofreu a mais fragorosa - e única, aliás - derrota desde que assumiu o poder, em 1989, atribuída ao rigor da aplicação de seu plano econômico. Mas também saíram derrotados os partidos de esquerda, aglutinados na Frente Unida, que não conseguiram eleger sequer um deputado. Estavam em jogo metade das 257 cadeiras do Parlamento. O Partido Justicialista (peronista) perdeu a maioria parlamentar que conquistou junto com a Presidência da República.
A derrota imposta a Menem contém uma contradição. Seu plano econômico, diferente do brasileiro apenas em questões superficiais, provocou um forte arrocho nos salários e desencadeou uma das maiores ondas de desemprego na história do país. Mas é justamente agora que a economia argentina apresenta seu melhor desempenho, registrando 8% de crescimento só no primeiro semestre deste ano.
Ao votarem nos candidatos da Aliança - formada pela histórica União Cívica Radical e pela Frepaso, que agora controlam o Congresso - os argentinos mandaram um duro recado a Menem. Primeiro, que o rigor do plano econômico, apesar de todos os benefícios macroeconômicos que trouxe ao país, abriu feridas profundas, que a população não está disposta a esquecer tão brevemente. Um índice de desemprego em torno de 16%, é bom que se diga, não é troféu para governo algum.
O outro recado, menos evidente mas nem por isso menos eloquente, foi o de que os argentinos estão fartos dos escândalos do governo e da intrincada malha de corrupção criada e ampliada desde a posse de Menem. O ex-ministro da Fazenda e autor do atual modelo econômico, Domingo Cavallo, obteve uma vitória expressiva em Buenos Aires, elegendo-se deputado, baseando sua plataforma eleitoral foi no combate sem tréguas à corrupção instalada na cúpula do poder e às ramificações em todo o corpo social.
Podemos, a partir das eleições argentinas, pensar um pouco sobre a situação brasileira. Carlos Menem reelegeu-se presidente há pouco mais de dois anos e Fernando Henrique Cardoso tentará imitá-lo no ano que vem. Ambos os presidentes comungam do mesmo ideário político-econômico e, embora as economias dos dois países tenham diferenças marcantes, não podemos desprezar o impacto que terá, nas eleições do ano que vem, o alto índice de desemprego, felizmente menor que o argentino, registrado hoje no Brasil.
A Aliança foi a grande vencedora das eleições argentinas porque centrou seu discurso na necessidade de tornar mais ‘‘humano’’ o programa econômico. O modelo não foi questionado, explorando-se apenas a necessidade de aprimorá-lo, com a apresentação de propostas concretas para tal. E justamente por bater duro no modelo econômico, sem apresentar alternativas a ele, é que a Esquerda Unida foi duramente humilhada. Se não conseguirem apresentar um modelo alternativo palatável ao projeto de governo de FHC, limitando-se, como têm feito até agora, a condená-lo, as oposições brasileiras poderão passar por um vexame.

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