Brasil On Line (José Antonio Pedriali)
A Câmara estendeu seu expediente ontem até as 23 horas para receber as propostas de emendas ao Orçamento que pudessem ser entregues pelos deputados atrasadinhos. Ontem foi o último dia para a apresentação de emendas. Segunda-feira, véspera do encerramento da apresentação de emendas, pouco mais de 10% dos 513 deputados haviam entregue suas propostas.
Dinheiro no campoOs escândalos, neste País da Impunidade, terminam normalmente esquecidos no fundo de uma gaveta, isto quando os documentos comprometedores não desaparecem no meio do percurso. Os escândalos obedecem a um ritual rigoroso, que começa com a denúncia ou descoberta de uma fraude, seguida inevitavelmente do clamor popular que irá gerar a abertura da investigação. Investigação que, pouco a pouco, produzirá tantos tentáculos e tantas complicações jurídicas que, também inevitavelmente, provocará o distanciamento da opinião pública que, finalmente, quando forem adotadas algumas medidas punitivas, já terá esquecido como tudo aquilo começou.
No meio do processo, o escândalo, neste País da Impunidade, contará sempre - e isto também faz parte de seu ritual - com um aliado importantíssimo, que será a eclosão de novo escândalo que, como o primeiro e o posterior e o seguinte, trilhará fatalmente para o ocaso e a impunidade dos envolvidos.
A denúncia do deputado federal por Rondônia, Emerson Olavo Pires (PSDB), de que o governador de seu Estado, Valdir Raupp (PMDB), acertou com o presidente Fernando Henrique e com o ministro das Comunicações Sérgio Motta a liberação de verbas em troca de seu apoio à reeleição, seguiu um ritual diferente: caiu no esquecimento dois dias depois de formulada. A denúncia foi feita na semana passada e o deputado, cujo pai, Olavo Pires, foi assassinado em plena campanha pelo governo de Rondônia, em 1990, adornou sua denúncia com a auréola da fatalidade. Disse que, ao agir como agiu, estaria assinando sua própria sentença de morte.
Exageros ou paranóia à parte, Emerson Pires comprovou o que dizia com a gravação de uma conversa com Valdir Raupp, na qual o governador admitia que estava na iminência de colocar a mão de R$ 66 milhões, recursos que seriam injetados em obras de infra-estrutura com o objetivo explícito de alavancarem sua campanha pela reeleição. Esses recursos, disse Raupp, serão repassados pelo BNDES para compensar seu empenho, junto à bancada federal de seu Estado, na aprovação da emenda da reeleição, pela qual o presidente FHC tinha interesse mais que explícito.
Esses os fatos, e agora, onde estão os atos? Tanto FHC como Motta negaram qualquer envolvimento na tramóia, baseando seus argumentos na ajuda que concedem a todos os governadores que a solicitam. E ninguém investigou o que receberam os governadores que se articularam a favor da reeleição e o que deixaram de receber os que não se mexeram ou se opuseram a ela.
O fato, sem dúvida, é menos relevante e menos peçonhento que a descoberta de que dois deputados federais confessaram ter recebido R$ 200 mil para votar a favor da emenda da reeleição, negociata que respingou em Sérgio Motta e no Planalto. Mas se insere no mesmo contexto, o da reeleição, colocando sob suspeita todo o processo. Assim, poderemos reeleger FHC no ano que vem, baseado num instituto democrático, mas obtido através de meios ilícitos ou de negociatas nem sempre benéficas ao Tesouro. Maquiavel aplaudiria.
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