Enquanto as eleições para a Presidência se mantêm em ritmo de banho-maria, o ex-ministro da Fazenda Ciro Gomes, o primeiro a se lançar candidato à sucessão de Fernando Henrique, prospera em seu negócio paralelo. Ciro dá pelo menos três palestras por semana, em qualquer parte do território brasileiro, para exibir seus dotes de recém-egresso de pós-graduação da Universidade de Harvard e espicaçar o governo FHC.
Pé-de-meiaO diplomata José Ramos-Horta, ativista dos direitos humanos e embaixador itinerante da libertação do Timor Leste - missão que lhe rendeu o Nobel da Paz do ano passado - revela grande simpatia pelo Brasil. Além da afinidade linguística e cultural, pois o Timor é a o enclave asiático mais avançado da comunidade lusófona, Ramos-Horta conquistou aqui vários amigos pessoais e simpatizantes de sua causa, entre eles o saudoso Betinho e o presidente Fernando Henrique Cardoso.
No último domingo, em artigo na ‘‘Folha de S. Paulo’’, Ramos-Horta voltou a pedir, mais uma vez, a solidariedade, já prometida e conveniente arquivada, do governo brasileiro à causa de seu país, invadido há 22 anos pela Indonésia, que o anexou à revelia da Organização das Nações Unidas. O Nobel, que ele compartilhou com o bispo timorense Carlos Felipe Belo, foi o reconhecimento da Academia de Ciências Sueca à luta pela libertação de um povo esquecido pela comunidade internacional.
O Nobel trouxe à tona o drama timorense e a insensibilidade do regime indonésio, comandado há mais de três décadas pelo general Suharto, e denunciou a barbárie em que se converteu aquela ilha, perdida no Pacífico Norte, onde, de seus 700 mil habitantes por ocasião da invasão, mais de 300 mil foram mortos pelas tropas invasoras. O efeito do Prêmio Nobel, no entanto, teve curta duração, da mesma forma como outros, que sensibilizaram a opinião pública, mas logo caíram no esquecimento, a exemplo dos laureados deste ano da Academia de Hollywood que serão inevitavelmente atropelados pelos do ano que vem. Alguém se lembra, para se limitar a apenas um caso, de Adolfo Perez Esquivel e sua luta em defesa dos direitos humanos na Argentina, então comandada pelos generais fanfarrões?
A academia sueca, no entanto, não premia obras de ficção. O povo timorense - ou o pouco mais de 50% que restou dele - é testemunha e vítima da omissão da comunidade internacional, que preferiu contemporizar com o regime indonésio que, afinal - e os direitos humanos que vão às favas! - foi responsável por inserir o país entre a segunda geração dos Tigres Asiáticos.
Ramos-Horta chama a atenção para a importância do Brasil na causa pela libertação de seu povo, já que, argumenta, como o mais populoso e economicamente mais forte de todos os da comunidade lusófona, é, por vocação, o que mais força poderá exercer, no terreno diplomático, para forçar a desocupação do Timor.
Mas, além da retórica, o governo brasileiro - que já foi repreendido pelo ex-presidente português Mário Soares por seu silêncio - não dá sinais de que pretende se mobilizar para satisfazer o anseio dos timorenses. Nessa área, a velha escola do Itamaraty, que nos anos 70 adotou o ‘‘pragmatismo responsável’’ como baliza para a política externa, ainda prevalace, pois a Indonésia vem ano a ano consumindo mais produtos brasileiros.
Mas, se efetivamente quiser liderar um movimento pela libertação de um povo oprimido, o momento é mais do que oportuno para o Brasil, que luta por um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas.
Atividade paralela

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