Brasil On Line (José Antonio Pedriali)
O governador interino de Alagoas, Manoel Gomes de Barros (PTB), não cumpriu as metas a que havia se proposto, em junho, para receber o socorro financeiro que, desde então, o governo federal passou a dar a seu Estado. Ele agora ficará de castigo: enquanto não cumprir o que prometeu, ficará chupando o dedo. Barros nada fez para privatizar as empresas estatais de Alagoas e não conseguiu reverter o acordo, assinado por Fernando Collor, que isenta os usineiros do recolhimento do ICMS.
AltaAs cenas transmitidas pela televisão primam pela eloquência e se assemelham às de um filme clássico de aventura dos anos 70, Selvagens cães de guerra, baseado no best-seller do escritor e ex-jornalista britânico Frederick Forsyth. Soldados (!) sem uniforme, indisciplinados, reviram o palácio presidencial, destroem seus móveis, dançam sobre as mesas e saqueiam o que restou do delírio da vitória.
Na obra de Forsyth, a cena se desenrola num país imaginário da África. Nas imagens transmitidas pela tevê, o saque ocorre num palácio real de uma cidade real de um país real. O Congo está agora, novamente, sob o poder de Denis Sassou Nguesso, marxista que governou com mãos de ferro de 1979 a 1991. O ex-presidente, Pascal Lissouba, eleito democraticamente, está desaparecido e fará o possível para assim continuar pois, se for pego, terá de cumprir prisão perpétua com trabalhos forçados, como estabelece a primeira decisão do novo governo.
Ao contrário de Selvagens cães de guerra, o golpe de Estado no Congo não teve a participação de mercenários estrangeiros, ainda presentes em muitas crises africanas, como na recente tomada de poder no ex-Zaire. O ex-ditador daquele país, Mobuto Sesse Seko, precisou recorrer a mercenários estrangeiros na tentativa desesperada de conter o avanço, finalmente vitorioso, de seu inimigo de há décadas, Laurent Kabila. Os mercenários ficaram de fora da crise do Congo (ou pelo menos não se tem notícia deles), mas a vitória do marxista Nguesso só foi possível graças à ajuda de tropas - fala-se de mil soldados -, aviões e tanques de Angola.
Angola faz fronteira com o Congo e é governada, há 22 anos, por um regime marxista. O ex-Zaire, rebatizado de República Democrática do Congo, livrou-se de Mobuto, corrupto até o último fio de cabelo, mas se curvou a Kabila, marxista histórico que representava a esperança após comandar seu exército de guerrilheiros por mais de 30 anos pelas selvas e savanas do país. A guerra fria acabou, a Rússia, o mais poderoso dos países que compunham a União Soviética, luta para não submergir à crise econômica, o mundo de repente descobre que está sendo dominado por uma nova ideologia, a globalização, e lá, num cantinho esquecido da eternamente pobre África, guerrilheiros marxistas impõem-se a dois governos, de etnias divergentes, que haviam abandonado pela força das urnas.
Congo e República Democrática do Congo são apenas dois dos muitos países do Terceiro Mundo onde os benefícios da globalização não chegaram - e dificilmente chegarão em médio espaço de tempo. Nesses países, o tribalismo é fator preponderante de agregação e se sobrepõe à ideologia, à ordem política e ao regime econômico. Recentemente assistimos ao genocídio em Ruanda e em Burundi, onde o ódio secular de tribos rivais - os tutsis e os hutus - veio à tona com a voracidade de um vulcão. Os conflitos tribais, porém - expressão de uma sociedade que não compreende o sentido da globalização -, não são privilégio da África: na Ásia, sobretudo no Oriente Médio, os laços tribais falam mais alto que os apelos à integração.
Chupando o dedo





