Brasil On Line (José Antonio Pedriali)
O ministro das Comunicações, Sérgio Motta (PSDB), poderá criar constrangimento para o governo brasileiro. Após elogiar, ontem, o encontro dos presidentes Bill Clinton e Fernando Henrique, Motta dirigiu sua artilharia para a França. O Estado francês, disse, é um paquiderme. O encontro de Clinton e Cardoso, segundo ele, mostrou a altivez do governo brasileiro.
Virando a mesaEsperávamos o Silvester Stalone e nos deparamos com Fred Astaire. Apesar da troca de atores, a Casa Branca Productions Inc. não nos decepcionou e o personagem Bill Clinton e sua adorável e meiga esposa Hillary deixaram entre nós uma mensagem de simpatia e compreensão. Os que torciam para um desfecho sanguinolento no encontro de Fernando Henrique e Clinton, que divergem sobre o processo e o ritmo de implantação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), certamente ficaram frustrados.
A visita do presidente norte-americano, encerrada ontem, teve coreografia digna de um filme hollywoodiano dos anos 60, bem água com açúcar, o que decepcionou a platéia que esperava a ação de um demolidor. Clinton não é nenhum herói do futuro. Desempenha com perfeição um enredo digno de um Fred Astaire. Clinton não revelou por enquanto seus dotes de bailarino - e a essa altura da vida se o fizesse seria façanha digna do Guiness Book -, mas suas palavras e gestos no Brasil foram tão meticulosas como os passos e trejeitos do par inseparável de Ginger Rogers.
Clinton e sua esposa esbanjaram simpatia desde o momento da chegada, na noite de segunda-feira, em Brasília, até a partida, ontem à tarde, no Rio, com destino a Buenos Aires. As mulatas da Didá Banda Feminina tiveram, possivelmente, papel decisivo nesse encontro presidencial. No dia seguinte à apresentação delas, no Palácio do Alvorada, com aquele rebolado que deixou quase vesgo o presidente norte-americano, Clinton tomou uma atitude pouco usual a um mandatário de seu porte. Pediu desculpas, ao visitar o Congresso, pelo famigerado - e mais que verdadeiro - relatório da embaixada dos EUA que acusava o Brasil de ser portador de um vírus incurável, a corrupção endêmica.
As palavras duras couberam ao anfitrião que, no banquete de recepção a Clinton, no Itamaraty, foi logo avisando que, apesar de os dois países terem propósitos comuns, esbarram em interesses que não coincidem inteiramente (...) ou são mesmo concorrentes. Curto e grosso, FHC foi direto ao ponto: estamos de acordo com a Alca, mas vamos devagar com o bonde. No dia seguinte, em entrevista no Palácio da Alvorada, e ontem, ao se dirigir a empresários paulistas, Clinton deu a resposta, mais amena que se esperava: É importante que o povo brasileiro compreenda que os Estados Unidos jamais iriam propor alguma coisa que pudesse minar o crescimento de qualquer outro país, disse Clinton. Ufa, o Mercosul, pomo-da-discórdia entre os dois países, está a salvo!
Desfeito o mal-entendido, na aparência, pelo menos, o que restou da vinda de Clinton ao Brasil, além da assinatura de alguns acordos e convênios em áreas tão díspares quanto a educação e o envio de um brasileiro a alguma missão espacial americana? Sorrisos, apertos de mão, o desfile de uma nova coleção fashion da primeira-dama e o interesse recíproco - também na aparência - de se combinar integração comercial com a melhoria das condições sociais do continente. E a perspectiva de que, se continuar falando demais, Sérgio Motta poderá ser o primeiro brasileiro a ir para o espaço.
Rota de colisão





