Brasil On Line (José Antonio Pedriali)
O trunfo apresentado pelo deputado federal Abelardo Lupion (PFL-PR) em sua campanha pela extinção do Incra é um modesto caderno, com anotações à mão. O caderno, segundo o deputado e líder da bancada ruralista na Câmara, foi encontrado na Fazenda Saudade, em Querência do Norte, onde um grupo de sem-terra foi expulso por ruralistas da região - e voltou a ocupá-la dias depois.
Incra e MSTO senador Roberto Requião (PMDB-PR) tem-se esmerado, quando se encontra no Estado, em afirmar e reafirmar sua condição de pré-candidato ao governo do Paraná, mantendo, porém, brecha suficiente para cultivar o suspense se, no final do túnel, não acabará se lançando - ou tentando se lançar - candidato à sucessão presidencial. Ao voltar a Brasília, porém, o senador adota outro discurso e não deixa margem a dúvida - sua pretensão é mesmo a de se lançar na corrida presidencial.
Em longa entrevista ao Correio Braziliense de segunda-feira, Requião não usou de meias palavras. Postou-se como candidato, apresentou-se como a alternativa da esquerda ao programa neoliberal de Fernando Henrique e garantiu que 95% dos peemedebistas irão se decidir pela candidatura própria, vencendo a corrente - liderada, entre outros, pelo presidente da Câmara, Michel Temer - que defende a aliança em torno da reeleição do presidente.
O PMDB é justamente o primeiro obstáculo ao objetivo do senador, pois nem a cúpula do partido, a começar por seu presidente, Paes de Andrade, pode jurar de pés juntos, sem correr o risco de passar por mentirosa, de que o partido irá sacramentar o lançamento de uma candidatura própria. O Planalto, que já cooptou para o PSDB e PFL vários peemedebistas, continua entoando o canto da sereia - e quão doce é esse canto para uma parcela significativa de políticos, do PMDB ou qualquer outro partido...
Se superar esse obstáculo, Requião terá de se impor como candidato e, para isto, terá de se livrar de dois rivais em potencial: o senador e ex-presidente José Sarney e o ex-presidente e embaixador do Brasil junto à Organização dos Estados Americanos, Itamar Franco. Na entrevista ao Correio, Requião sinaliza que não está preocupado em relação a Sarney mas que Itamar lhe causa algum embaraço. Sarney foi co-autor, junto com Requião, da idéia de o partido realizar caravanas por todo o país em defesa da candidatura própria, mas seu real interesse em ocupar a vaga não pôde ser comprovado até hoje sequer por seus assessores mais próximos.
Quanto a Itamar, outro que se diverte na corda bamba da indefinição entre o Planalto e o Palácio da Liberdade, o senador paranaense mistura, na medida certa, elogios e ataques, como, aliás, convém ser tratado um ex-presidente da República que acaba de assinar a ficha de filiação no PMDB. Requião elogia suas posições nacionalistas, progressistas, coloca-o no mesmo nível de Lula quanto às convicções de esquerda, mas não perdoa o que interpreta como debilidade na defesa de suas posições. Lula é mais firme em suas convicções do que Itamar tem sido, disse textualmente o senador ao Correio.
Os dois discursos - um dirigido ao público paranaense, outro ao público nacional - tem sido a pedra-de-toque da estratégia política do senador, que, assim, mantém seus adversários com a guarda fechada e preserva um amplíssimo espaço de manobra. E, enquanto a definição não vem, surfa destemido em águas turvas, desafiando o perigo de, a qualquer deslize, ser tragado por elas.
Trunfo na mão





