Brasil On Line (José Antonio Pedriali)
A Folha de S. Paulo denunciou que o Prona, partido comandado pelo folclórico médico e duas vezes candidato à Presidência, Enéas Ferreira Carneiro, está cobrando R$ 7 mil dos interessados em concorrer a uma vaga de deputado federal pela legenda. (Meu nome é) Enéas disse ontem que não vê nada demais na cobrança.
BuzinaçoPodemos odiá-lo - e muitos têm motivos de sobra para isso -, podemos criticar suas idéias, podemos nos opor à sua trajetória política. Mas não podemos desprezar o senador Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA). O que ele quer, ele consegue - e esta poderia ser a frase que resume sua atuação parlamentar. Desde que assumiu a presidência do Senado, e portanto do Congresso, no início do ano, ACM não perdeu sequer uma causa pela qual se empenhou.
Antes de se tornar presidente do Senado, ACM já havia protagonizado um dos episódios mais tonitruantes de sua carreira. Quem não se lembra dele, liderando um pelotão de parlamentares baianos, marchando (e bufando) do Congresso para o Palácio do Planalto para impedir na marra a execução extrajudicial do Banco Econômico?
A mais recente causa de ACM foi a ofensiva contra a aposentadoria especial de juízes e militares, abolida no segundo turno da votação da reforma da Previdência pelo Senado, na noite de quarta-feira. É natural que os afetados se sintam injuriados com a decisão de ACM e dos senadores - que só terá validade após ser referendada, também em duas votações, pela Câmara -, mas este não é o tema deste artigo.
O tema é: ACM quis, e assim se fez.
O presidente do Senado comprou, com este procedimento, a mais árdua de suas brigas na atual legislatura e jogou todo o seu prestígio político para conseguir seu intento. Na primeira votação, recordemos, a aposentadoria especial dos juízes foi mantida através da expressão no que couber, referente ao alinhamento dessa categoria à decisão, tomada naquela ocasião, de acabar com a aposentadoria integral dos servidores públicos. Uma simples expressão, três inocentes palavras, mas ali estava a brecha para os magistrados e militares preservarem a integralidade de suas aposentadorias e pensões.
O presidente do Supremo Tribunal Federal, Celso de Mello, contrário à manutenção do privilégio, foi sem dúvida um aliado importante de ACM, mas sua cruzada somente teve início após a repercussão negativa da primeira decisão dos senadores junto à opinião pública. ACM percebeu que não poderia remar contra a maré - esta decisivamente não é sua especialidade, principalmente quando a maré é favorável a seus interesses e de seu eterno aliado, o governo, seja lá quem for que esteja nele.
Para conseguir o que pretendia, ACM teve de atropelar o líder do próprio partido no Senado, Edison Lobão (MA), favorável à aposentadoria especial, bateu de frente com os lobbistas da Associação Brasileira de Magistrados e encarou seus colegas com uma ameaça sutil como um elefante branco: caso o privilégio permanecesse, ele, ACM, condenaria o procedimento de seus pares em rede nacional de rádio e TV.
Pragmático na conduta, mestre do conchavo, cabra-macho, sim, senhor, quando as circunstâncias exigem, ACM pode ser odiado, pode ser criticado, mas não pode ser desprezado e, certamente, passará à História como um dos políticos que mais se impuseram na vida nacional. Para o bem - ou para o mal.
Até tu, Enéas?





