O lançamento da candidatura de Lula à presidência ‘‘foi um equívoco’’, na avaliação da ex-prefeita de São Paulo Luiza Erundina, que acaba de trocar o PT pelo PSB. Erundina mantém suspense se será ou não candidata ao governo de São Paulo e manda um recado duro aos ex-companheiros: ‘‘O PT tem dificuldade de conviver com o poder’’.
Chega pra láO choque de personalidades entre o ex-ministro Ciro Gomes e o presidente de honra do PT, Luís Inácio Lula da Silva, está levando a pique o projeto do barco em que os opositores de Fernando Henrique Cardoso sonhavam capitanear para abalroar o navio presidencial nas eleições do ano que vem. O barco sequer teve seu projeto concluído e as primeiras chamas da vaidade já começam a se alastrar pelo estaleiro.
O episódio mais recente do confronto entre Ciro e Lula foi motivado pela disposição, manifestada pelo líder petista, de convidar para o palanque da oposição o megaempresário Antônio Ermírio de Moraes, que vem se indispondo com FHC por causa dos reflexos negativos do Plano Real sobre a economia em geral e sobre seus negócios em particular.
Ciro preferiu não entrar no mérito da questão, mas não perdeu a chance de cutucar Lula, que havia descartado a união com o ex-ministro, sob o pretexto mais que correto de que ele (Ciro) não é da esquerda. ‘‘O que ele tem que eu não tenho, exceto, é claro, a fortuna pessoal?’, perguntou Ciro, referindo-se a Antônio Ermírio e dando o assunto por encerrado.
A oposição enfrenta há muito o dilema de se unir, como única forma de ameaçar a reeleição de FHC, mas, para isso, precisa de um projeto viável de governo e de um nome que convença o eleitorado de que é capaz de aplicar esse projeto. E como chegar a um consenso sobre um programa e principalmente sobre um nome se cada integrante dos partidos de oposição, da base aos líderes, tem uma concepção de mundo divergente e, muitas vezes, contraditória?
O governador de Pernambuco, Miguel Arraes, foi um dos pioneiros da idéia de unir a oposição em torno de uma candidatura única, apostou suas fichas em Ciro Gomes, mas acabou recuando. Ciro não lhe pareceu confiável por causa de seu discurso liberal e, além disso, enfrenta séria oposição do PT, partido sem o qual a frente não tem a menor chance de se concretizar.
A reunião dos líderes da oposição, quinta-feira passada, em Brasília, teve o final melancólico que se esperava. As mais fossilizadas personagens da vida política brasileira - de Leonel Brizola a João Amazonas, passando por Arraes - concluíram que nada se poderia concluir daquele encontro, organizado para se chegar a um consenso sobre a frente.
Enquanto a oposição se digladia na busca de um acordo a cada dia mais impossível, o navio de Fernando Henrique, que seus opositores esperavam estivesse avariado e fazendo água a essa altura do percurso, mostra-se mais sólido que nunca. A mais recente pesquisa do Ibope constatou, para espanto de seus detratores, o aumento da popularidade do presidente, que hoje conta a aprovação de 45% dos eleitores.
E assim, a um ano das eleições, a nau dos desunidos dá sinais de que sequer sairá da prancheta, sobre a qual se debruçam engenheiros que mal se olham nos olhos. Até lá, muita água irá correr por esse oceano, os efeitos de El Ni¤o são imprevisíveis... e, por enquanto, o navio do presidente navega confortavelmente em direção ao porto seguro onde espera ficar atracado mais quatro anos.
‘‘Equívoco’’

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