Nem a decisão de Mário Covas (PSDB) de não concorrer à reeleição cristalizou de vez a decisão de Paulo Maluf (PPB) de se contentar com a disputa ao governo de São Paulo. O ex-prefeito diz que sua decisão definitiva será tomada em fevereiro do ano que vem. Até lá, Maluf continuará com os pés nos dois barcos - a campanha pelo governo de São Paulo e pela Presidência da República.
Prazo fatalHá muito tempo o PSDB percebeu que detinha o mais alto poder da República mas estava fora de suas decisões e, pior, muitas dessas decisões contrariavam o ideário do partido. Desde que Fernando Henrique deflagrou a campanha pela aprovação da emenda da reeleição, os tucanos ciscavam e espreitavam no horizonte, desconfiados de que o presidente estava disposto a tudo para atingir seu objetivo. Dito e feito: para aprovar a emenda, Fernando Henrique negociou mundos e fundos e, embora caberá à História comprovar ou não esta suspeita, baseada em indícios ostensivos, barganhou às escondidas com seus adversários, servindo-lhes na bandeja as cabeças mais emplumadas do partido.
O brado de ‘‘não fico’’ dado pelo governador de São Paulo Mário Covas fez soar o alarme e trouxe à tona o que os tucanos, da cúpula às bases, sussurravam nos corredores do poder. O PSDB percebeu que, em troca da manutenção do cargo-mor da República, poderá esfacelar o poder que detém nos Estados. São Paulo, o principal Estado da federação, ficará refém de Paulo Maluf (PPB) caso Covas mantenha sua decisão de não concorrer a mais quatro anos no governo; Minas foi oferecida ao ex-presidente Itamar Franco como compensação à sua desistência de concorrer à Presidência, mesmo que isto jogue por terra as pretensões do governador Eduardo Azeredo, aliado de primeira hora do Planalto; e Marcello Alencar, do Rio de Janeiro, poderá ser rifado se não aumentar seu cacife diante da escalada pré-eleitoral do ex-prefeito César Maia, do PFL. Alencar dificilmente o conseguirá.
Nos outros quatro Estados, de menor expressão, que controla, o PSDB só está confiante de se manter no poder em um - o Ceará, apesar de Tasso Jereissati afirmar que também não quer disputar a reeleição. Se ficar de fora, seu prestígio será suficiente para ungir o sucessor.
No Paraná, os reflexos desta barganha federal poderão atingir letalmente o ex-governador Álvaro Dias, que o diretório estadual do PSDB quer a todo custo lançar candidato ao governo do Estado no ano que vem. Álvaro está entre a espada e a parede. Articulou eficientemente com a bancada do partido a aprovação da emenda da reeleição e, agora, diante da metamorfose pefeliana do governador Jaime Lerner, ex-PDT, poderá ser jogado às feras. O Planalto sinaliza de maneira ambígua diante dos temores de Álvaro, mas, em termos práticos, não é melhor um pássaro na mão do que outro voando? E Lerner, que nunca foi de fato um opositor, está agora mais do que seguro...
A crise dos tucanos, antes de identidade, agora de confiança, coloca o presidente em situação delicada diante de seus pares. O brado de Mário Covas pegou o presidente de surpresa, que terá de entrar em ação para evitar o agravamento da crise. Fernando Henrique agiu rápido ao convocar os governadores do partido para uma reunião emergencial. Os ânimos estão exaltados e o presidente terá de explorar ao máximo seus dotes professorais para convencer seus aliados de que tudo, afinal, não passa de intriga da oposição.
Ele vem aí

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