O governador Mário Covas conseguiu a façanha de unir todo o PSDB em torno de seu nome para sua reeleição no ano que vem. Até o ministro do Planejamento, Antonio Kandir, se juntou ao coro dos que pedem: ‘‘Fica, fica’’
Na retaÉ natural que o PSDB esteja perplexo com a desistência do governador de São Paulo, Mário Covas, de concorrer à reeleição no ano que vem. Covas, afinal, não é apenas um tucano a mais no ninho: além da plumagem que identifica a nobreza de sua estirpe, o governador é um dos sócios-honorários do PSDB e, virtude das virtudes, amigo pessoal do presidente Fernando Henrique Cardoso.
Amigo? Bem, só ele e FHC poderiam responder a esta pergunta,, inconcebível alguns meses atrás, pois ninguém suspeitaria, e se suspeitasse teria profunda crise de consciência para tornar pública sua dúvida, que a antiga e sólida amizade entre os dois pudesse estar sofrendo algum abalo. Por mais que Covas se recuse a abordar publicamente as questões íntimas do coração, sua amizade com o presidente já dava sinais inequívocos de abalo.
O primeiro embate público entre o governador e o presidente foi durante o processo de negociação da crise do Banespa que, não fosse a insistência de Covas e sua proximidade com Fernando Henrique, teria soçobrado. A renegociação da dívida bilionária do Estado de São Paulo também só chegou a bom termo porque o governador mexeu mundos e fundos e reduziu a folha de pagamentos a pouco mais de 60% das despesas. E aí veio a Lei Kandir, que pregou uma rasteira em todos os governadores - e Covas ficou com o mico na mão.
Com as finanças finalmente sob controle, era de se esperar que Covas se lançasse com empenho à campanha pela reeleição, e eis que, no sábado à tarde, após almoço com seu secretariado, ele anuncia que não vai concorrer. A ‘‘decisão irrevogável’’ do governador deixou perplexos não só seus secretários como toda a cúpula tucana.
No plano imediato, a decisão de Covas deixa o PSDB de calças na mão diante da ofensiva avassaladora de Paulo Maluf (PPB), seu principal adversário em São Paulo. Maluf lidera, com folgada vantagem, todas as pesquisas de intenção de voto, e, no momento, o único que poderia ameaçar sua vitória no ano que vem era justamente Covas. Com o governador fora do páreo, os tucanos têm de correr atrás de um nome expressivo. Mas quem? O senador Almino Affonso, outro tucano de alta linhagem, já avisou que vai carimbar seu passaporte no PSB e, tal como Covas, sofre do mesmo crise de identidade em relação ao governo federal, ocupado por um social-democrata que segue à risca a cartilha neoliberal.
Dos líderes históricos do PSDB paulista sobra, portanto, um único nome - o senador Franco Montoro. É difícil, no entanto, imaginar o PSDB lançando Montoro para enfrentar um adversário bem mais jovem, ágil e arguto como Maluf. No âmbito estadual, os tucanos estão diante de um sério desafio, mas no âmbito federal a desistência de Covas desbloqueia definitivamente o caminho para Fernando Henrique selar o já esboçado acordo de cavalheiros com Maluf: o ex-prefeito terá o apoio do presidente (mesmo que velado) para suas pretensões e, em troca, o ex-prefeito se atira no colo do presidente.
Amigos, amigos; negócios à parte.‘‘Fica, fica’’

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