O Palácio do Planalto mobilizou ontem alguns jornalistas de sua assessoria de imprensa para obter uma cópia, uma gravação ou um tape do discurso de Lula no encerramento do 11º Encontro Nacional do PT, ocorrido domingo no Rio. Nem os parlamentares do PT, consultados pelos assessores, puderam atender ao pedido: simplesmente porque ninguém se deu ao trabalho de gravar o discurso, feito de improviso.
E os arapongas?Cena 1 (homens de aparência sóbria, cabelos brancos, fisionomia séria, taciturnos, introspectivos): os tucanos estão em crise de identidade. Detêm o poder, mas se sentem excluídos dele; elegeram um presidente da República, porém se sentem alijados de suas decisões, com as quais, aliás, não se identificam. Esta é a conclusão que se pode tirar do encontro das executivas estaduais do partido, realizado segunda-feira em São Paulo. Os velhos caciques do partido se uniram em torno da lamúria de que é chegada a hora de uma definição - ou o partido assume sua condição social-democrata, que, ademais, inspirou-lhe o nome, ou corre o risco de naufragar na massa cinzenta do anonimato político-partidário nacional.
Cena 2 (aplausos, fogos de artifício, tapinhas nas costas, sorrisos, principalmente do ex-burgomestre Rafael Greca): o governador Jaime Lerner, ex-PDT, faz um ato de contrição durante a assinatura, ontem, da ficha de filiação ao PFL, para explicar os motivos que o levaram a trocar uma sigla social-democrata por uma liberal. ‘‘O mundo vem encurtando distâncias ideológicas’’, afirma, para decretar: ‘‘Vivemos um tempo em que as soluções estão se impondo às ideologias’’.
‘‘Flashback’’ (cena de fundo a critério do leitor): Há muito tempo os partidos políticos brasileiros deixaram de ser um conglomerado de idéias para se transformar numa associação exclusivamente asséptica (em termos ideológicos). Como os times de futebol, que vivem do espetáculo, se organizam, elaboram estratégias, reforçam o ataque ou a defesa para que possam proporcionar o maior espetáculo da política, que é a vitória eleitoral.
‘‘A História está morta’’, pontificou o cientista político norte-americano Francis Fukuyama poucos meses antes da queda do Muro de Berlim. Para ele, o fim dos regimes comunistas, que ocorreria pouco depois, lançava o mundo aos braços do capitalismo ao esgotar todas as alternativas de estrutura social, econômica e política. Todo o resto, até então concebido pelo homem, havia sido testado - e fracassou fragorosamente.
O Brasil pode reivindicar para a si a patente mundial de partidos políticos sem compromisso ideológico. A exceção até agora tinha sido o PT, mas sua coerência tirava-lhe a perspectiva de conquistar o poder a curto, médio e tampouco a longo prazos. Pois, por paradoxal que pareça, a maior virtude do PT, que é justamente a fidelidade a uma linha ideológica e programática, tem-se revelado seu principal adversário.
E é este adversário que o PT decidiu enfrentar após a conclusão de seu 11º Encontro Nacional. A ojeriza a uma política de alianças, mesmo que circunstancial (e existe algo em política que não seja circunstancial?), foi exorcizada. O partido, portanto, está pronto para se coligar a outros, mesmo os de centro (teoricamente) ou centro-esquerda (também teoricamente) em busca de um objetivo maior - vencer as eleições do ano que vem, preferencialmente para a presidência da República. Mas se não der, que se arrebatem alguns governos estaduais e o máximo possível de capitais e cidades do interior.
The end.
Sem pistas

mockup