Há 3 mil sem-terra acampados no Pontal do Paranapanema. Segundo um coordenador do movimento na região, ‘‘está difícil segurar o pessoal’’. Os acampados exigem que se amplie o número de invasões.
SolidárioO temido confronto entre a União Democrática Ruralista (UDR) e militantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), previsto para domingo no Pontal do Paranapanema, não ocorreu. Felizmente. Mas quanto tempo irá durar a paz armada entre fazendeiros, que se sentem ameaçados em seu direito de propriedade, e os sem-terra, que reivindicam a posse de fazendas improdutivas ou mesmo produtivas como estratégia para forçar o governo a implantar, urgentemente, um amplo e radical programa de reforma agrária?
Pois a guerra entre os produtores rurais e os sem-terra está na iminência de ser deflagrada e poderá adquirir grandes dimensões. Hoje são focos isolados de conflito, que se estendem do Sul do Pará até a fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai, concentrando-se, com toda a sua carga explosiva, no Pontal, no Noroeste do Paraná e no Sul do Mato Grosso do Sul.
A área de conflito latente e potencialmente explosivo está, portanto, delimitada. Mas sendo o MST um movimento com estrutura flexível e métodos de ação que têm no elemento surpresa uma de suas vantagens mais evidentes, é impossível prever, e principalmente descartar, a irrupção de novos focos de conflito em outras regiões e em curto espaço de tempo.
O conflito no Pontal atinge dimensões mais alarmantes devido 1) a já sua longa existência, 2) à situação vulnerável, em termos jurídicos, dos produtores, uma vez que a região está em litígio pela posse há décadas, 3) é ali que o MST concentra seu maior poder de mobilização e de articulação política e 4) é também ali que os fazendeiros estão melhor organizados e foi lá que surgiram as primeiras milícias armadas.
O elemento novo na tensão - ou guerra não declarada - no Pontal é a mobilização, pública e notória, dos produtores, que, no domingo, se concentraram na Fazenda São Domingos, em Sandovalina, dispostos a enfrentar os sem-terra à bala. Contratar jagunços ou uma milícia já é grave em si, atitude extrema de quem está disposto a defender o que possui custe o que custar, mas a mobilização pública do proprietário, seus parentes e amigos para lutarem, arma em punho, por sua fazenda é uma atitude que revela a disposição de partir para o tudo ou nada. E quando se chega a este ponto, é praticamente impossível recuar.
O MST fez o que nenhum outro movimento, na história brasileira, conseguiu: tomar a iniciativa da reforma agrária e colocar o governo federal, por mais que o Ministério de Assuntos Fundiários negue, a reboque de suas pretensões. Os proprietários rurais, por sua vez, enfrentam simultaneamente dois adversários: o primeiro, ostensivo, é o MST; o segundo, corrosivo e mais letal a longo prazo que o primeiro, é o desestímulo à produção, uma vez que a atividade agrícola é uma das menos rentáveis e, em muitos casos, deficitária.
A situação, portanto, é esta: o MST ganha dia a dia mais espaço e mais poder e os proprietários rurais, com a paciência a ponto de se esgotar, se armam. A guerra está declarada. Só falta ser deflagrada em larga escala.Pressão

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