Brasil On line (José Antonio Pedriali)
Zeus e os deuses subalternos do Olimpo decidiram: removam-se os obstáculos, todos, não importa de que natureza sejam, que 98 está no papo e não abrimos mão!
Carlos Apolinário (PMDB-SP), homem temente ao Deus cristão, desafia, espada em punho, as divindades pagãs e brada: só se passarem por cima de meu cadáver! Querem impedir que as oposições façam campanha e isto eu não vou aceitar, adverte o deputado.
Pois o balaio de gatos em que está se transformando a lei eleitoral em gestação no Congresso se assemelha, às avessas, a um confronto dos tempos mágicos do Gênesis, quando Deus aparecia em carne e osso diante de seus filhos, obra-prima de Sua criação, e eles, ingratos e cegos de teimosia, insistiam em dar-Lhe as costas para cultuar os deuses pagãos.
Pois Apolinário foi o ungido para relatar a lei eleitoral que irá disciplinar as eleições do ano que vem e, para desagrado do Olimpo, tenta imbuí-la de princípios morais que os deuses pagãos não estão dispostos a admitir. Condições iguais para todos os que irão disputar a presidência da República e governos estaduais? O Olimpo esbraveja: jamais! Conceder um período satisfatório de tempo para que esses rebeldes possam expor seus projetos? Infâmia! Impedir que Zeus use seu Boeing, pago por todos os contribuintes do Olimpo, durante a campanha eleitoral e, mais ainda, vetar sua presença em inaugurações de obras? Heresia! Heresia!
E porque Apolinário, em sua inocência - ou principalmente por sua cumplicidade com os ensinamentos do Deus cristão - se expôs aos raios disparados com todo o furor (furor, sim, embora silencioso) pelo Olimpo, eis sua situação: está ameaçado pelo anátema divino e, portanto, na iminência de perder a condição de relator. O ungido virou o infiel!
A ameaça de que o relator poderá ser substituído está sendo feita pelo presidente da Câmara, Michel Temer - também de São Paulo e também do PMDB -, e, uma vez concretizada, será a maior pisada no tomate dada até agora pelo líder dos deputados. Pois, desde que tomou posse, Temer tem enfatizado sua independência em relação ao Planalto e todos os seus atos, até agora, confirmaram seus propósitos.
A ópera, em resumo, é esta: o Planalto está insatisfeito com o projeto de lei preparado pelo relator, negociou com os líderes dos partidos aliados a retirada de várias restrições à campanha reeleitoral de Fernando Henrique, esses líderes estão pressionando Apolinário para mudar seu texto, Apolinário não cede, Michel Temer articula sua deposição... E, até que a lei seja submetida à votação em plenário, o que está previsto para terça-feira, e se houver a troca do relator, o texto original poderá ser tão desfigurado que, ao ser apresentado ao estimado público, corre o risco de ser batizado Manual dos Irmãos Cara-de-pau de como ganhar uma eleição sem esparramar o mingau.
Em termos numéricos, o Olimpo não tem sua vontade garantida e a oposição poderá se impor em plenário, já que bastará a presença de 257 deputados e a lei será submetida à aprovação - ou rejeição - por maioria simples. A sorte está lançada.





