Os deputados federais do Paraná estão sendo convidados para um encontro da Associação dos Agentes da Inspeção do Trabalho do Estado. O convite é explícito: recomenda, ‘‘para melhor desempenho do trabalho’’, que cada orador não fale mais que 15 minutos. Se cada um dos 30 deputados federais comparecer, e falar, os pobres ouvintes sairão com as orelhas em brasa - porque terão de escutá-los por 7 horas e meia.
A ver navios 1Pois o prefeito de São Paulo, Celso Pitta (PPB), é um homem de sorte que está sendo perseguido implacavelmente pelo azar. A sorte lhe escancarou o sorriso ao transformá-lo no funcionário de confiança da Eternit, empresa da família do ex-prefeito e ex-governador Paulo Maluf, e daí para a vida pública foi um sopro do destino. A glória maior de sua vida, a conquista do comando da maior metrópole sul-americana, lhe trouxe, porém, o assédio do azar. Desde que Pitta tomou posse não passou um dia sequer em descanso, sem que fosse importunado pela imprensa, pelos senadores da CPI dos Títulos Públicos, pelos fiscais da Receita Federal...
E quando a avalanche de suspeitas, indícios e provas de seu envolvimento com a emissão irregular de títulos públicos começou a se dissolver, com a substituição do relatório do senador Roberto Requião (PMDB-PR), que o incriminava, por outro, que o perdoava de todos os pecados, mais uma vez a sorte voltou a lhe afagar o ombro cansado por suportar tanto peso. O destino, no entanto, preparou-lhe novo e súbito encontro com o azar: desta vez ele, sua esposa Nicéia, seu antecessor e guru Maluf e a esposa deste, Sylvia, foram arrebatados da paz dos justos e transportados para o turbilhão de suspeitas que os lançou no cipoal, ou melhor, na granja dos frangos dos ovos de ouro.
Seria de extrema maldade suspeitar de qualquer irregularidade na compra pela Prefeitura de mais de 800 toneladas de frangos para saciar a fome de crianças em fase escolar e funcionários eternamente dedicados. Foi o destino, em sua inocência e ingenuidade, que conduziu ao encontro de uma empresa, a Obelisco, de propriedade de um cunhado de Maluf, e outra, a A D’Oro, pertencente à esposa de Maluf e, por fim, a prefeitura. Em comum acordo, e logicamente depois de efetuada a mais transparente das licitações (em que a empresa vencedora tirou o time de campo sem dar a menor satisfação, abrindo mão de uma fortuna), que as três pontas do triângulo se uniram para a mais santa de todas as caridades, que é dar de comer a quem tem fome.
A sindicância, sob as ordens de Pitta, formada para investigar mais esta denúncia, concluiu: não houve nenhuma irregularidade na compra dos frangos e a contratação da empresa da mulher de Maluf, que dissecava os penosos que recebia da granja de seu irmão, foi ‘‘mera coincidência’’, como enfatizou o prefeito. Ao anunciar o resultado da sindicância com uma celeridade impressionante, Pitta demonstrou a eficácia que se espera de um homem público como ele.
A culpa, se houve, é, portanto, dos que sentiram cheiro de penugem defumada na mais correta e límpida transação comercial. Quanto à passagem de Nicéia, a esposa do prefeito, pela empresa de Sylvia Maluf, foi outra coincidência. Mera coincidência. Nicéia não tem nada a ver com isso, jamais trabalhou lá: era apenas uma estagiária, uma dedicada dona-de-casa que passou alguns dias aprendendo a depenar, escaldar, destrinchar e temperar galináceos para enriquecer seus dotes domésticos de esposa dedicada.Orelhas em brasa

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