As instruções do Palácio do Planalto têm sido claras. Ao tratar da crise política, que hoje paralisa o Paraguai, é para seguir a risca um velho conselho: ‘‘Em briga de marido e mulher, não se deve meter a colher’’. O que, traduzido para o diplomatês, vem a ser ‘‘o Brasil não interfere em assuntos de outro país’’, especialmente se tem com ele relações quase familiares.
Publicamente, o chanceler Luiz Felipe Lampreia tem dito pouco ou quase nada. Mas em conversas reservadas, que teve em Buenos Aires esta semana e terá em Washington nos próximos dias, a tumultuada sucessão do presidente paraguaio, Juan Carlos Wasmosy, está no topo da agenda.
O Brasil quer evitar qualquer mal-entendido que coloque em risco seus interesses no Paraguai: uma sociedade na hidroelétrica de Itaipu (responsável por um terço de seu consumo de energia) e outra no Mercosul (a união aduaneira, integrada também pela Argentina e o Uruguai, que se transformou numa marca registrada capaz de multiplicar investimentos estrangeiros).
Apesar do silêncio oficial, os políticos brasileiros da fronteira estão dizendo, em alta voz, o que o governo e os militares pensam: a situação é delicada e, apesar de o Brasil dizer que aceita qualquer desfecho, contanto que sejam respeitadas as regras constitucionais, existe mais de uma interpretação da legislação.
Coincidência ou não, o general candidato Lino Oviedo foi levado a um Tribunal Militar Extraordinário, nomeado pelo presidente Juan Carlos Wasmosy, somente agora - dois anos depois de ter sido acusado de tentar dar um golpe de estado e meses depois de ser escolhido candidato a candidato do Partido Colorado às eleições presidenciais, previstas para 10 de maio.
Os oviedistas denunciam um ‘‘golpe branco’’ do governo e querem recorrer à justiça comum. Os anti-oviedistas têm outra carta na manga: tentar a anulação, na justiça eleitoral, da chapa colorada, alegando que houve fraude na votação e que o registro jamais foi autorizado pelo partido.
‘‘O problema é que esta é uma verdadeira briga de família, com todas as suas complicações’’, disse um diplomata do Mercosul. Todos os protagonistas são do Partido Colorado, no poder há meio século. Eram colorados tanto o general Alfredo Stroessner, exilado em Brasília, quanto o sogro de seu filho, o falecido general Andrés Rodriguez, que o derrubou num golpe de estado. São colorados Oviedo, que ajudou Rodriguez a prender Stroessner e assumir o poder, como Wasmosy, para cuja vitória na eleição presidencial de 1993, ele também contribuiu. (M.Y.)

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