Brasil 'muda' discurso para pôr pré-sal na linha de frente
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terça-feira, 22 de setembro de 2009
Catarina Scortecci<br>Equipe da Folha 
Brasília - A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, afirmou ontem que não houve mudança no volume de recursos destinados à produção de energias renováveis, mas admitiu que seria ''ingênuo'' se o Brasil colocasse no mesmo foco um produto que pudesse concorrer com o petróleo da camada do pré-sal. Um eventual conflito entre o pré-sal e as fontes renováveis de energia não interessaria ao Brasil no momento, sugeriu ela.
Embora a descoberta do pré-sal tenha ocorrido em 2006, a apresentação no início do mês de um marco regulatório da área representou uma mudança brutal de discurso do governo federal, que até pouco tempo vendia mundo afora a ideia do biocombustível como fonte alternativa de energia, aproveitando um mercado que se abria diante da crescente preocupação ambiental. ''Nós podemos continuar sendo grandes produtores de etanol e grandes exportadores de petróleo'', afirmou ela, durante entrevista à imprensa, após abrir um seminário sobre o pré-sal.
Dilma afirma que a energia renovável no Brasil já corresponde a uma fatia ''muito significativa'' da matriz energética e que o perfil se manterá: ''O fato de nós termos petróleo e podermos ser um grande exportador não elimina essa grande vantagem que o Brasil tem de ser um país renovável. Primeiro, se olharmos só a matriz elétrica: nós somos hoje um país que não depende substancialmente de carvão. Somos o único país do mundo que tem uma participação dos biocombustíveis muito significativa. Nenhum carro brasileiro anda sem o mínimo de 25% de mistura de etanol na gasolina. Ainda temos o 'flex', que aumenta a participação do etanol. Também misturamos 4% de diesel de origem de óleo vegetal no diesel. Somos os maiores produtores de biocombustível sem competir com o alimento. E vamos manter essa matriz, que é uma grande conquista''.
Mas o mote do governo federal que colocava o biocombustível como um produto que impulsionava a figura do Brasil no mundo saiu da linha de frente. Na abertura do seminário, o discurso da ministra-chefe sugere um futuro atrelado à descoberta da camada de petróleo, embora ela admita que o País ''não pode abandonar'' o que é ''mais ecologicamente correto''.
Levando em conta os quatro projetos de lei do governo federal que tratam do marco regulatório do pré-sal, a questão ambiental é inserida somente na criação do fundo social, que receberia os rendimentos do óleo. Uma das áreas que receberia recursos do fundo social é a do meio ambiente.
O senador Delcídio Amaral (PT-MS), que também participou do seminário, afirmou que a questão ambiental estaria sendo ''deixada de lado''. ''O componente ambiental não pode ser 'aparteado' do debate'', criticou ele.
Ao participar do seminário, o presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, tentou justificar o foco em torno do mercado do petróleo. Ele afirma que, embora exista a necessidade crescente de descobertas de energias renováveis, ''não acredito em nenhuma mudança significativa pelos próximos 30 anos''. Para ele, o carvão, o petróleo e o gás natural continuarão ''fundamentais''. ''Não enfrentaremos nenhum problema por falta de demanda.''


