São Jorge do Oiapoque, Guiana Francesa - Os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Nicolas Sarkozy se comprometeram ontem a assinar, ainda neste ano, um amplo acordo na área militar e de defesa. Em encontro na pequena cidade da Guiana Francesa, na beira do rio Oiapoque e na fronteira de um dos extremos da região norte do Brasil, eles disseram estar dispostos a colocar em prática um intercâmbio tecnológico e militar que prevê troca de experiências e construção de submarinos, caças e helicópteros.
Em declaração à imprensa, Sarkozy chegou a se comprometer a construir no Brasil, caso o País decida reequipar suas Forças Armadas com material bélico francês, um submarino Scorpen, que tem casco especial. O domínio da tecnologia de construção desse submarino permitiria aos técnicos brasileiros avançarem no desenvolvimento de um modelo nuclear. ''Queremos uma parceria global, que não seja apenas uma entrega de material militar, mas uma estratégia maior que a relação de compra e venda'', disse o presidente francês. ''Entre França e Brasil não existem tabus.''
Lula disse que o acordo não pode ser ''abstrato''. O presidente ouviu, em conversas com lideranças do Amapá queixas da falta de disposição política tanto de um país quanto de outro para colocar em prática acordos já firmados. É o caso da ponte sobre o rio Oiapoque, ligando o Estado à Guiana Francesa, orçada em R$ 38 milhões. Lula e Sarkozy prometeram abrir licitação para construir a obra.
A ''relação estratégica'' definida por Sarkozy incluiria acordos nas áreas ambiental e educacional e parceria nos diálogos nos fóruns políticos e econômicos. O presidente francês defendeu um assento permanente do Brasil no Conselho de Segurança das Nações Unidas e participação no grupo dos países mais desenvolvidos, hoje formado por apenas oito nações. ''O G-8 tem de se transformar no G-13'', disse Sarkozy, numa defesa também da presença no grupo do México, África do Sul, Índia e algum país árabe. ''O mundo precisa que o Brasil ocupe o seu lugar no cenário internacional.''
Sarkozy disse que a atual composição do Conselho de Segurança é atrasada, pois não leva em conta a América do Sul e a África. Na avaliação dele, é como se esses dois continentes nem existissem, ressaltou. ''Só assim (com países emergentes) podemos enfrentar grandes questões do mundo'', disse. ''O Brasil é uma potência democrática e amigo da França. Nós, franceses, somos transparentes com os amigos.''
Por sua vez, Lula criticou o Fundo Monetário Internacional (FMI), que segundo ele deveria buscar o desenvolvimento dos países pobres e deixar de lado a política de ajuste fiscal. O presidente ainda reclamou que das agências internacionais que atribuem uma escala de risco de investimentos nos países emergentes. ''Todo dia vejo no computador que o risco Brasil caiu e a crise americana aumentou'', disse. ''Mas só calculam o risco Brasil, e não o risco dos países que especulam.''
Integraram a comitiva do presidente Lula os ministros da Defesa, Nelson Jobim, do Meio Ambiente, Marina Silva, e da Educação Fernando Haddad, o assessor de Assuntos Internacionais do Planalto, Marco Aurélio Garcia, e o senador José Sarney (PMDB-AP).
Terno e guaiabeira
Mesmo com o mormaço típico da selva amazônica, Sarkozy não dispensou gravata e terno escuros nos eventos ao lado de Lula na pequena cidade da Guiana Francesa, na margem do Rio Oiapoque. Os moradores da antiga colônia, que os franceses preferem chamar de território ultramarino, demonstraram mais curiosidade em ver Lula, vestido com uma guaiabeira, roupa leve e formal da região do Caribe.

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