Brasil comprou armas dos nazistas
Arquivo FolhaPés no chãoGetúlio Vargas, comandante do Estado Novo: estudo mostra que, acima da ideologia, seu governo foi marcado pelo pragmatismoA Alemanha nazista contribuiu, durante a Segunda Guerra Mundial, com a modernização do Exército Brasileiro, enviando para o País carregamento bélico - principalmente material de artilharia. Mesmo depois de as relações diplomáticas entre os dois países terem sido rompidas, no final de janeiro de 1942, quando o Brasil acabou declarando apoio aos Aliados, o arsenal continuaria sendo entregue, se não fosse o bloqueio do Oceano Atlântico, que fez com que a Marinha norte-americana confiscasse armamento alemão em navios brasileiros.
Um estudo sobre o assunto foi feito pela pesquisadora brasileira Denise Rocha e lhe valeu o título de Magister Artium (Mestre em Artes) da Ruprecht-Karls Univesitat, em Heidelber, a mais antiga universidade da Alemanha, fundada em 1386. Para fazer a pesquisa, Denise consultou documentos confidenciais no Arquivo Político do Ministério das Relações Exteriores da Alemanha, em Bonn, no Arquivo Militar de Freiburg, no Arquivo Central de Potsdam (Berlim) e no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro.
Arquivo FolhaOsvaldo Aranha: apoio aos aliados garantiu siderúrgica para o paísPara a pesquisadora, paulista de Assis, o estudo é mais uma prova de que, acima das ideologias, o que importava para o Estado Novo, ditadura comandada por Getúlio Vargas, era o pragmatismo. Por pelo menos quatro anos, de 1938 a 1942, segundo o estudo, o armamento do Reich foi enviado para o Brasil, com a total supervisão do governo de Hitler e o interesse do governo Vargas que, em 1940, ainda tentou, junto com a Argentina, comprar armas belgas e francesas, confiscadas pelos nazistas.
O trabalho, intitulado As relações entre o Brasil e a Alemanha com relevo especial nos aspectos econômicos e na política armamentista (1930-1942), mostra que as empresas alemães do Terceiro Reich facilitavam a venda de armamento para o País em troca basicamente de sacas de café e algodão. Não havia transação em dinheiro, por causa do endividamento do Brasil e de outros países vizinhos, decorrente da quebra da Bolsa de Valores de Nova York em 1929.
Em ofício enviado, em 20 de março de 1938, ao então ministro da Fazenda, Arthur de Souza Costa, o embaixador da Alemanha no Brasil, Karl Ritter, comentava o contrato do governo brasileiro com a firma Krupp, para equipamento do Exército. Pelo contrato, avaliado em 8.281.383 libras esterlinas, o Brasil teria como opção pagar 75% do valor em marcos de compensação (matérias-primas diversas) e 25% em sacas de café (equivalente a 500 mil sacas do produto).
Arquivo Agência EstadoTransações eram feitasArtur de Souza Costa, ministro da Fazenda: troca de café por armasNo documento em que se referia à transação armamentista com a Krupp, ao qual a Agência Estado teve acesso, Ritter afirmava vir por meio desta confirmar que o Governo do Reich, considerando esta uma compra adicional governamental, que não deverá influir no intercâmbio normal entre as duas nações, se compromete por sua vez a fazer comprar no Brasil produtos brasileiros pelas importâncias previstas, a serem pagos em marcos de compensação, além das cotas a serem assinadas entre o Brasil e o Reich. Ainda segundo o ofício de Ritter, esses produtos serão de livre escolha, por parte do governo alemão, incluindo-se o algodão, ficando porém entendido que 25% do seu valor deverão ser adquiridos em café.
Denise Rocha teve acesso à relação do armamento encomendado pelo Brasil, elaborada, em 13 de dezembro de 1937, pelo tenente-coronel Canrobert Pereira da Costa, chefe de gabinete interino do Ministério da Guerra. Da lista, constam material de artilharia: anticarros, munições, canhões antiaéreos, baterias, reboques, viaturas, entre outros equipamentos. O Brasil se comprometia em pagar o armamento no prazo máximo de dez anos. Da concorrência, participaram cinco firmas alemães: Ansaldo, Bonfors, Rhein-Metal e Scheneider-Creusot e Krupp, esta última vencedora.





