Brasil burlou o acordo nuclear
PUBLICAÇÃO
domingo, 08 de dezembro de 1996
Agência Estado 
RIO - O Brasil descumpriu as regras do acordo nuclear com a Alemanha e repassou tecnologia alemã para o programa de energia nuclear paralelo - cujos objetivos não são energéticos, mas militares. A revelação está no livro Histórias Secretas do Brasil Nuclear (editora WVA), da jornalista Tania Malheiros, que será lançado no dia 10, às 19h, na livraria do Museu da República, no Catete.
O acordo nuclear firmado entre o Brasil e a Alemanha, em 1975, fazia parte do programa de energia nuclear oficial, cujo objetivo era gerar energia elétrica, e previa a instalação das usinas Angra II e Angra III. Na época, foi criada a Nuclebrás, posteriormente transformada em Indústrias Nucleares do Brasil (INB), que ficou encarregada de gerenciar o acordo. Ao contrário do que estabeleciam as regras do acordo, o INB acabou contribuindo com um projeto secreto da Marinha, voltado para o enriquecimento do urânio, matéria-prima fundamental para a fabricação da bomba nuclear.
Para comprovar a história, a autora apresenta no livro dezenas de documentos secretos, entre eles, um ofício confidencial enviado ao ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), Mário César Flores, pelo então presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), Márcio Costa, em que estão listadas as colaborações ao programa paralelo. Outros cinco documentos comprovam as colaborações da SAE, do CNEN e do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen) ao programa paralelo, que acabaram ajudando a Marinha a desenvolver a tecnologia de enriquecimento de Urânio.
Entre outras revelações, o livro detalha uma operação clandestina realizada entre 1981 e 1982, em que o Brasil enviou para o Iraque 27 toneladas de urânio, que contribuíram para o programa nuclear iraqueano, mais uma vez sem o conhecimento da Agência Internacional de Energia Nuclear. Em uma entrevista exclusiva à Tania Malheiros, o brigadeiro Hugo de Oliveira Piva, um dos principais articuladores dos negócios entre Brasil e Iraque, revela que os negócios firmados com o Iraque na área militar renderam ao Brasil muitas centenas de milhões de dólares.


