Brancos dominam altos cargos no serviço público
PUBLICAÇÃO
sábado, 10 de janeiro de 2015
Luís Fernando Wiltemburg<br>Reportagem Local 
O número de brancos ocupando cargos dentro do Poder Executivo federal é maior que o de negros e pardos juntos, apesar de não representarem a maioria étnica ou racial do Brasil. Os números foram divulgados ontem pela Escola Nacional de Administração Pública (Enap), tomando como base o quadro de funcionalismo público do ano passado.
Além de serem em maior número, os brancos também estão mais presentes em funções que exigem mais qualificação, enquanto os pardos são maioria nas atividades de nível auxiliar. Os brancos ainda concentram mais cargos de diretoria e assessoramento que outras raças ou cor.
A Enap é uma escola do governo federal voltada para formação e aperfeiçoamento no setor a servidores públicos federais. De acordo com o levantamento sobre a presença de raça e cor no funcionalismo público, os brancos ocupam 51,7% dos cargos na administração direta federal, autarquias e fundações, enquanto negros e pardos, juntos, concentram 26,4% das vagas. A cor de pele amarela, que representa principalmente japoneses, está presente em 3,4% do serviço público federal e os indígenas em 0,3%. Entretanto, não há informações sobre raça ou cor de 18,2% do universo estudado são servidores que não quiseram informar ou não foram perguntados sobre sua etnia.
Porém, ao comparar com os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), os brancos representam 47,7% da população, enquanto 43,1% se declaram pardos e 7,6%, pretos. Os amarelos são 1,1% e os indígenas, 0,4%.
Para o doutor em antropologia social e professor de antropologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Marcos Silva da Silveira, estes dados mostram a importância da qualificação profissional e a predominância da cor branca em funções mais altas indicam a necessidade de mudança na mentalidade do brasileiro e de qualificação de negros e pardos.
O antropólogo afasta relação direta entre a composição populacional e os cargos ocupados no serviço público. "Os números e proporções de raça e cor do Brasil como um todo não correspondem a nenhuma região ou estado em particular, nem mesmo ao Distrito Federal", diz.
Para ele, o mais interessante é perceber como o nível de escolaridade conta enquanto os amarelos, principalmente japoneses, têm alto nível de escolaridade, os negros têm baixa escolaridade e, por isso, a representatividade no poder público é a metade de sua presença na sociedade.
Silveira também chama a atenção para o fato de o número de funcionários pardos ser maior entre os menos qualificados e os brancos dispararem nos níveis de maior escolaridade e nos cargos de confiança. De acordo com os números da Enap, 44% das funções de nível auxiliar são exercidas por pardos, enquanto os brancos estão em 23,5% delas. Nas atividades de nível intermediário, os brancos ocupam 41,4% dos postos e 61,1% dos que exigem nível superior nestes quesitos, respectivamente, os pardos são 26,7% e 17,3%.
Os cargos de assessoramento superior também são dominados pelos brancos, que ocupam 60,6% destes postos.
O antropólogo defende que a política de cotas para o ensino superior adotada pelo governo federal é essencial para dar acesso a negros e pardos a melhor qualificação. "Mas dificilmente estas políticas vão alterar os dados com relação aos cargos de confiança, por exemplo, enquanto não houver uma mudança de mentalidade no país."



