Bornhausen vê paralisias, contradições e imprudências
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sábado, 05 de abril de 2003
Diana Fernandese e Rosa Costa 
Brasília Há três meses no exercício da oposição ao governo, depois de décadas de relações afinadíssimas com o Palácio do Planalto, o senador catarinense Jorge Bornhausen, presidente do PFL, é uma das vozes mais contundentes contra a administração petista. Sobre os 100 dias do governo Lula, diz sem pestanejar: ''Cem dias de paralisia, contradições, retrocessos e imprudências.''
Para ele, o governo erra ao não enviar logo ao Congresso as reformas e duvida do projeto de autonomia do Banco Central. ''O sentimento que eu tenho é que o governo não quer enfrentar a sua base com assuntos como este.'' Sobre as reformas, um diagnóstico: ''Meu grande receio é que, tanto na Previdência como na reforma tributária, nós acabemos com reformas meia-sola.''
Ele considera a nomeação do ministro Antônio Palocci o fator positivo do novo governo e diz que sua manutenção no cargo será a ''prova de fogo'' do presidente Lula. Cita como grande mérito, até agora, a inexistência de denúncias de corrupção.
Bornhausen está ''adorando'' seu novo papel na política. ''Na oposição, você tem mais tempo para analisar a cena política.'' E também para fazer uma das coisas que mais gosta, pescar com amigos e familiares em Santa Catarina. Antes de seguir para mais um fim de semana de lazer, ele concedeu esta entrevista:
Como o sr. avalia os primeiros cem dias do governo Lula
Bornhausen - Acho que os cem dias marcaram o governo pelas contradições, pela paralisia, pelo retrocesso e pelas imprudências.
Quais são as contradições?
Bornhausen - A maior delas é o abandono do discurso de campanha, substituído pelas medidas na área econômica que eram satanizadas pelo próprio PT, como o aumento da taxa de juros, o aumento do compulsório dos bancos e do superávit primário. E contradição também no que diz respeito ao salário mínimo. Abandonou o discurso e não pediu desculpas à sociedade. Portanto coerência zero, penitência zero e mudança zero.
O País suportaria mudanças profundas na economia?
Bornhausen - O que eu reconheço é que eles não tinham plano nenhum. E por isso adotaram um neo-conservadorismo, que no meu entendimento não foi bem aplicado, especialmente na questão do aumento da taxa de juros, que foi a primeira ação do governo para combater uma inflação de origem cambial e não de demanda. A segunda atitude da área econômica foi correta, o aumento do superávit primário, porque cortou no governo.
O sr. falou em cem dias de retrocesso...
Bornhausen - Entre os retrocessos posso assinalar a nomeação para órgãos técnicos. Acusavam o governo passado de fisiologismo e agora, em nome do companheirismo partidário, estão nomeando na Funasa, IBGE, pessoas que não têm o menor conhecimento de saúde, de estatística. Um retrocesso.
O sr. vê algum mérito no governo Lula?
Bornhausen - Um aspecto positivo é que o governo não foi atingido por nenhuma informação de corrupção. É um dado favorável. Outra coisa é que, na falta de um plano econômico próprio, procurou adotar aquele que satanizou no passado. Mas foi melhor do que improvisar. Isso é positivo.
E o desempenho no Congresso?
Bornhausen - Está aí o ponto da paralisia, que se dá na falta de envio das reformas ao Congresso. Em vez de enviar as reformas, ele criou um Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social para que, através de nomes ilustres, possa atribuir o resultado à sociedade. Está usando a sociedade para não assumir a responsabilidade da assinatura que é do presidente da República e de seus ministros. Há ainda imprudência na condução das relações internacionais.


