O ex-vereador Orlando Bonilha (PR) citou ontem 12 vereadores em suposto esquema de cobrança de propina para aprovação de leis na Câmara Municipal de Londrina - o que equivale a 70% de seus integrantes. As afirmações foram feitas em depoimento ao Ministério Público, que durou quase seis horas. Segundo o ex-vereador, tinham participação ativa nas irregularidades o presidente Sidney de Souza (PTB) - o ''grande articulador'' -, o líder do Executivo, Gláudio Renato de Lima (PT), e o corregedor, Luiz Carlos Tamarozzi (PTB). Foram isentados Tercílio Turini (PPS), Roberto Kanashiro (PSDB), Paulo Arildo (PSDB), Maria Ângela Santini (PT) e Roberto Fu (PDT).

O ex-vereador também afirmou que a empresa Transportes Coletivos Grande Londrina (TCGL) faz um pagamento mensal de R$ 1.600 para os vereadores. O teor completo do depoimento foi mantido em sigilo pela promotoria. O advogado do ex-vereador, Ronaldo Neves, disse que o interrogatório terá prosseguimento hoje à tarde. ''Vai faltar gente para cassar gente'', ironizou.

O promotor Cláudio Esteves informou que eventual acordo de delação premiada com Bonilha só será analisado ao final das declarações. O depoimento do ex-vereador foi precedido de sua apresentação à Justiça, por volta do meio-dia. No início da noite, ele foi conduzido para o Centro de Detenção e Ressoacialização (CDR), onde cumpre prisão preventiva. A seguir, trechos da coletiva concedida por ele à imprensa.

Folha: Havia irregularidades na Câmara?
Bonilha: Estou elucidando os fatos da melhor maneira possível e muito em breve a população vai conhecer a realidade dos fatos.


Folha: O senhor citou nomes?
Bonilha: (Isso) não acontecia só com o dedo desse ex-vereador. Nós tínhamos (um grupo) composto de cinco, até seis vereadores que faziam essa articulação. Mas o grande negociador chama-se Sidney de Souza (PTB).


Folha: Quem mais?
Bonilha: O próprio vereador Flávio Vedoato, o vereador Renato Araújo, o vereador Gláudio também...


Folha: Isso tudo envolve propina?
Bonilha: São projetos que chegaram à Câmara e tiveram relacionamento com dinheiro.


Folha: Algum vereador não participava do esquema?
Bonilha: Sim. Ao meu conhecimento, nunca participaram Tercílio Turini, Roberto Kanashiro, Roberto Fu, Maria Ângela Santini e Paulo Arildo.


Folha: Seu conhecimento sobre os vereadores que recebiam propina vem do fato de que também participava dessa partilha de dinheiro?
Bonilha: Sim, não estou me eximindo de nada.


Folha: O senhor nega a acusação do empresário Nelson Dequêch, que sustenta ter sido vítima de um achaque seu, no valor de R$ 12 mil, para facilitar a implantação de uma cervejaria no Jardim Hedy?
Bonilha: Eu nunca conversei com o Nelson Dequêch. Ele deveria ter a hombridade de se lembrar que tratou, na época, com atual vereador João Dib Abussafi.


Folha: Há quanto tempo existiam irregularidades na Câmara?
Bonilha: Desde que eu cheguei, em 1997, sempre acompanhamos estes fatos.



Folha: Como era a relação com os empresários?
Bonilha: Nunca fui a empresa nenhuma exigir propina, mas já fomos procurados muitas vezes nos gabinetes, por alguns empresários que são verdadeiros canalhas. Isso aconteceu.


Folha: O Poder Executivo tem alguma participação nisso?
Bonilha: Não tenho conhecimento.


Folha: A TCGL paga valores mensais para os vereadores?
Bonilha: Não posso falar nesse momento, mas meu depoimento envolve isso também.


Folha: Houve propina para alterar a lei de zoneamento que viabilizou um shopping na Zona Norte?
Bonilha: Houve sim, também estou explicando isso aos promotores.


Folha: Essa foi a maior propina cobrada na Câmara - no valor de R$ 120 mil?
Bonilha: Não sei, (mas) essa é uma das maiores.


Folha: Os vereadores Gláudio, Sidney e Tamarozzi o criticaram duramente ontem - Tamarozzi inclusive o chamou de canalha. Você pode garantir que os três participavam de irregularidades?
Bonilha: Participavam, e teve algumas coisas que eles mesmo encaminhavam. Em alguns fatos eles são mais canalhas do que eu. O próprio Tamarozzi que hoje posa de bom moço...


Folha: Um exemplo que envolva os três...
Bonilha: A própria Shirogohan, que foi articulado pelo Sidney, e outras coisas que aconteceram na Casa.


Folha: Houve pagamento de propina para eles?
Bonilha: Houve sim e confirmei no depoimento.


Folha: Neste caso, quem lhe entregou sua parte do dinheiro?
Bonilha: O vereador Sidney. Foi ele quem conversou e fez todo o acerto. Depois de aprovado, ele falou: X para você, X para outro.


Folha: E a lista do Caldarelli era verdadeira? Todo mundo ali recebeu propina?
Bonilha: Aquela lista é verdadeira. É verdadeira.


Folha: O senhor ganhava mais dinheiro com propina do que com o salário?
Bonilha: Se pegar entre gastos de gabinete e outras coisas, dá mais que propriamente o salário.


Folha: O que tem a dizer neste momento para seu eleitor e para o fiel que participa da mesma igreja que o senhor?
Bonilha: O que posso dizer é que, se errei, quero pagar pelos meus erros. Mesmo que eu tiver que enfrentar qualquer tipo de processo, estou disposto. Só o que não posso é enfrentar sozinho porque nada na Câmara acontece assim.

mockup