Uma cervejaria está no centro da nova denúncia criminal apresentada ontem pelo Ministério Público (MP) contra o vereador e ex-presidente da Câmara Municipal de Londrina, Orlando Bonilha (PR). Ele é acusado de ter exigido - e recebido - R$ 12 mil de um empresário, há pouco mais de quatro anos, para ''liberar'' a aprovação do projeto que alterou o zoneamento da Rua Wenceslau Braz (Zona Oeste), liberando a instalação do bar Fábrica 1 em uma área antes residencial.
A matéria passou e se converteu na lei municipal nº 9.274/2003. Tudo começou no segundo semestre de 2003, quando o empresário Nelson Dequech negociou a venda de um terreno no Jardim Hedy ao também empresário José Alves Durães, interessado em montar ali a cervejaria. O comprador, porém, exigiu que a área fosse entregue apta para construção, o que demandava a alteração no zoneamento. Os dois procuraram a prefeitura, que se prontificou a enviar um projeto de lei à Câmara estabelecendo a mudança. A matéria foi protocolada em setembro.
De acordo com a denúncia do MP, em dezembro do mesmo ano Dequech teria mantido ''contatos com vereadores'' após constatar que o projeto não fora submetido a votação. O então presidente da Câmara, Orlando Bonilha, teria encaminhado o empresário a uma sala na própria sede do Legislativo e lhe cobrado R$ 12 mil, ameaçando não colocar o projeto em votação caso a propina não fosse paga.
Ainda conforme a denúncia, ''receoso de não ver o Projeto de Lei referente ao empreendimento 'Fábrica 1 - Microcervejaria e Gastronomia Ltda.' encaminhado para votação, (...) Dequech acabou por concordar com a exigência''. O pagamento teria sido efetuado em espécie, no gabinete do próprio presidente.
Assinada pelos promotores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) Cláudio Esteves, Jorge Barreto, Renato de Lima Castro e Leila Voltarelli, a denúncia entregue ontem à 5Vara Criminal de Londrina foi elaborada com base nos depoimentos dos empresários e de outras testemunhas envolvidas na viabilização do empreendimento. Bonilha foi acusado de concussão (extorsão praticada por agente público), crime com pena prevista de dois a oito anos de reclusão.
É a segunda denúncia do MP contra o vereador em pouco mais de um mês. Na primeira, protocolada na 2 Vara Criminal em 16 de janeiro, ele é acusado de concussão e formação de quadrilha junto com os vereadores Renato Araújo (PP), Osvaldo Bergamin (PMDB) e Flávio Vedoato (PSC), além do ex-vereador Henrique Barros (sem partido). Foi este último quem ''entregou'' os ex-colegas após ser preso em flagrante com R$ 9,9 mil, supostamente frutos de propina. Bonilha foi apontado como mentor do esquema que teria ''vitimado'' três empresários da cidade, extorquidos em troca de aprovação de projetos.
À exemplo da denúncia anterior, a nova peça coloca Dequech como vítima do suposto crime na Câmara. Ontem, nem ele, nem o dono da cervejaria foram localizados pela reportagem para comentar o assunto.
O presidente da Comissão de Ética Parlamentar (CEP) da Câmara, vereador Roberto Kanashiro (PSDB), informou que a assessoria jurídica da Casa irá avaliar se o caso é passível de investigação pela CEP, mesmo tendo ocorrido na legislatura passada. Se for configurada conduta incompatível com o decoro parlamentar, a Mesa Executiva poderá chamar votação para abertura de uma Comissão Processante, que irá deliberar sobre a cassação de Bonilha. Segundo Kanashiro, qualquer cidadão pode entrar com representação contra o acusado na Câmara.

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