As eleições para a presidência da Câmara Municipal são compradas - e pagas com dinheiro arrecadado em atos de corrupção. Este é o teor de uma das declarações feitas ontem pelo ex-vereador Orlando Bonilha (PR) em seu segundo depoimento ao Grupo de Atuação Especial e Combate ao Crime Organizado (Gaeco) desde que passou a colaborar com as investigações sobre corrupção no Legislativo. Bonilha afirmou que o atual presidente, Sidney de Souza (PTB), comprou seu voto em janeiro de 2007 por R$ 50 mil. Em 2005, quando Bonilha foi reeleito presidente, ele é que teria pago R$ 50 mil para Sidney de Souza, além de R$ 50 mil para o vereador afastado, Flávio Vedoato (PSC).

''Houve essa composição sim, tanto com o vereador Sidney quanto com o vereador Flávio Vedoato'', confirmou Bonilha à imprensa após um interrogatório de cinco horas, que rendeu 14 páginas de acusações. ''E também na eleição do Sidney houve esse tipo de composição, mas de forma diferenciada. Ele se propôs a pagar esses mesmos R$ 50 mil arrumando projetos para alcançar o montante''. O advogado Ronaldo Neves - defensor de Bonilha - foi ainda mais claro ao explicar a operação. ''O compromisso assumido por Sidney (seria pago) por acertos de propina que viessem através de projetos de lei.''

Bonilha disse ter ouvido do atual presidente que o valor poderia até ultrapassar o que investiu na sua própria eleição. ''Só que o ano passou e ele não conseguiu sanar esse montante''. O ex-vereador não soube afirmar, porém, quanto ainda teria a receber por seu voto.

Bonilha afirmou que Roberto Fu (PDT) também teria recebido dinheiro para votar em seu nome na eleição de 2005. ''Teve uma ajuda de R$ 5 mil a R$ 5,5 mil para ele'', afirmou. O recurso, de acordo com Bonilha, teria sido usado por Fu para saldar uma dívida com uma oficina mecânica.

O ex-vereador disse que nem todos os membros da Câmara trocavam seu voto por dinheiro, mas sustentou que a negociação era fundamental para se eleger presidente. ''Os vereadores são eleitores qualificados, então tem que haver negociação senão não consegue obter sucesso na sua eleição.''

Bonilha acrescentou que as eleições gerais, para escolha dos agentes políticos, também envolvem compra de votos. ''Se eu falar que não, poderia estar mentindo. Então, estou abrindo meu coração e falando a verdade: isso aí ocorre em todos os segmentos.''

Corrupção

O promotor Renato de Lima Castro, que acompanhou o interrogatório, disse que o Gaeco terá trabalho ''por muitos meses'' para apurar todas as denúncias feitas pelo ex-vereador. Ele afirmou que as declarações confirmam a denúncia já levada à Justiça em ações civeis e criminais de que ''há uma quadrilha incrustrada na Câmara Municipal para o cometimento de crimes''. Castro explicou que, juridicamente, a compra de votos dentro de um parlamento configura crime de corrupção.

O presidente da Câmara, Sidney de Souza, reagiu com um número sugestivo - equivalente ao número de vereadores denunciados por Bonilha - às declarações do ex-colega: ''Ele tem que se lembrar que, quando declarou voto para mim, eu já tinha 12 votos a meu favor, isso está registrado. Ele queria o terceiro mandato e minha candidatura o inviabilizou; então agora vem com essas afirmações totalmente infundadas'', defendeu-se, para completar: ''Eu nem teria de onde tirar R$ 50 mil e, quando votei nele, não tinha a necessidade de receber por isso''. Souza disse que vai ''processar criminalmente Bonilha por calúnia, injúria e difamação''.

Já Roberto Fu (PDT) negou ter recebido dinheiro para votar no ex-colega - mas admitiu ter sofrido ''certo assédio, por parte dele''. ''Na reeleição, o Bonilha me procurou perguntando do que eu precisava, me oferecendo cargos na Prefeitura. Na eleição seguinte (de Souza), o Bonilha queria garantir que ele próprio tinha conseguido meu voto para o Sidney, mas não deu certo. Votei neles, mas, nos dois casos, não recebi um centavo - ou teria perdido a vergonha na cara.'' Flávio Vedoato não foi localizado pela FOLHA. (Colaborou Janaina Garcia)

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