Orlando Bonilha (PR) deverá enfrentar sozinho um processo de cassação na Câmara Municipal de Londrina. É o desdobramento direto do relatório da Comissão de Ética Parlamentar (CEP), entregue ontem, que ao mesmo tempo livrou de qualquer punição os vereadores Osvaldo Bergamin (PMDB), Flávio Vedoato (PSC) e Renato Araújo (PP) – acusados junto com Bonilha de cobrar propina para aprovação de três projetos de lei em 2007.
  Iniciadas a partir da representação do jornalista Juarez Rezende Araújo, em 21 de janeiro, as investigações da CEP sobre os quatro parlamentares duraram 37 dias. O prazo final para entrega do relatório era 22 de março, mas o presidente da comissão, Roberto Kanashiro (PSDB), já havia anunciado que o grupo pretendia terminar os trabalhos o quanto antes para evitar mais desgaste à Câmara. O presidente da Câmara, Sidney de Souza (PTB), recebeu o documento no início da sessão de ontem dizendo-se surpreso. ‘‘Não esperava que isso fosse ocorrer hoje’’, disse.
  Em Plenário – e na ausência de Bonilha, justificada a pretexto da doença de um parente – Souza leu apenas os dois últimos parágrafos do relatório. Contra Bergamin, Vedoato e Araújo, o texto assinala que ‘‘esta Comissão reputa não haver quaisquer indícios que justifiquem a continuidade de uma investigação, razão pela qual opinamos pelo arquivamento da representação’’. Em seguida, aponta que, quanto a Bonilha, ‘‘não há como se estender o posicionamento acima dada a acusação expressa contida no depoimento inicial do (ex)vereador Henrique Barros’’.
  O depoimento a que se refere o relatório é justamente aquele que deu início ao maior escândalo da história da Câmara de Londrina. Flagrado com R$ 9,9 mil recebidos de empresários da cidade, Barros foi preso e declarou ao Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) que Bonilha seria o ‘‘cabeça’’ de um esquema que consistia em exigir vantagens econômicas de pessoas interessadas na aprovação de leis. No dia 16 de janeiro, Barros e os quatro citados foram denunciados pelo Ministério Público (MP) por concussão e formação de quadrilha.
  Em entrevista após a entrega do relatório, Kanashiro afirmou que a CEP recomendou a cassação somente de Bonilha ‘‘porque as citações de Barros contra ele foram muito incisivas, envolvendo o vereador em todas as situações’’. O vice-presidente da comissão, Luiz Carlos Tamarozzi, seguiu a mesma linha: ‘‘Os outros três vereadores foram citados numa única linha do depoimento. Já o Bonilha é citado várias vezes, dando todo o trâmite do processo que eles usaram para pegar o dinheiro’’, argumentou.
  A CEP entendeu que Bonilha incorreu em conduta incompatível com o decoro parlamentar. A próxima etapa é uma reunião da Mesa Executiva, que irá encaminhar o indicativo à Procuradoria Jurídica e depois apresentá-lo em Plenário. Se os vereadores acatarem a denúncia, uma Comissão Processante será formada através de sorteio. Em no máximo 90 dias, ela terá que decidir pelo arquivamento do caso ou cassação do acusado.
  ‘‘O vereador tem autonomia para renunciar ao mandato antes que a denúncia seja apreciada’’, lembrou Souza. Foi o que fez Barros no dia 24 de janeiro, para escapar de uma cassação. O advogado de Bonilha, Ronaldo Neves, afirmou que seu cliente deverá enfrentar o processo. A denúncia contra Bonilha pode entrar na pauta de votações daqui uma semana.
  Vedoato comentou que sempre teve a ‘‘consciência tranqüila’’. ‘‘Eu estava de férias (quando das denúncias de Barros), não fui ouvido pelo MP nem por ninguém. Agora só vou aguardar o desfecho disso na Justiça’’, disse. Bergamin, que também esteve ausente na sessão de ontem, afirmou que o resultado já era esperado. ‘‘Pode virar minha vida do avesso, não vão encontrar nada. Sempre trabalhei pelo povo.’’ Renato Araújo não quis comentar o assunto.

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