Boni admite censura da Globo nas 'Diretas-Já'
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sexta-feira, 30 de dezembro de 2005
Cristina Padiglione<br> Agência Estado 
São Paulo - Deu-se no ''Conexão Roberto DÁvila'', via TV Cultura, quase na surdina, um depoimento precioso de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho Boni para a massa. Dividida em duas partes, a segunda exibida ontem quarta-feira, a entrevista com o ex-chefão da Globo expôs detalhes de bastidores sobre um daqueles episódios fadados ao debate inesgotável: a postura da Globo na campanha das Diretas-Já.
Boni cita a então pressão da censura sobre a principal emissora do País, fato evidenciado pela versão oficial da Globo no livro ''Jornal Nacional A Notícia faz História'' (lançado em 2004), mas reforça, além do que o livro tenta nos fazer crer, a responsabilidade de Roberto Marinho na (filtrada) transmissão do primeiro comício das Diretas-Já, na Sé, em São Paulo, dia 25 de janeiro de 1984, exibido pelo JN daquele dia, mas anunciado como uma festa ao aniversário de São Paulo''. Só no meio da reportagem, depois de falar dos 430 anos da cidade, do feriado e do aniversário da USP, é que Ernesto Paglia dizia: ''milhões de pessoas vieram ao Centro de São Paulo para, na praça da Sé, se reunir num comício em que pediam eleições diretas para presidente''.
Eis o que disse Boni a Roberto D'Ávila: ''A campanha das Diretas foi uma censura dupla: primeiro a censura da censura, depois a censura do doutor Roberto. Como a televisão é uma concessão do serviço público, eles (militares) sempre mantinham uma pressão muito grande dentro da televisão. No momento das Diretas-Já eles ameaçaram claramente a Globo de perder a concessão ou de interferir mais duramente no entretenimento. Então, o doutor Roberto não queria que se falasse em Diretas-Já. Eu fui o emissário final do pessoal do jornalismo na conversa com doutor Roberto e ele permitiu que a gente transmitisse aquilo ali dizendo que havia um show pró-Diretas-Já, mas sem a participação de nenhum dos discursantes, quer dizer, a palavra e o que se dizia, estava censurado''.
''O Roberto Irineu combinou com o doutor Roberto que deixasse transmitir os comícios das Diretas-Já e que ele (Roberto Irineu) ficaria na sala dele, com o controle na mão, pra impedir qualquer coisa que fosse mais grave. Era um artifício para convencer o doutor Roberto que aquilo podia ir, tanto que ele foi pra sala dele e jamais cortou alguma coisa. Mas a Globo entrou atrasada na campanha das Diretas-Já por conta da pressão em cima da principal emissora e por conta do doutor Roberto Marinho ter algum temor de perder a concessão.''


