Bolsonaro recua e diz ter zero chance de esvaziar ministério de Moro

Discussão sobre o desmembramento da Justiça para a pasta da Segurança Pública criou um mal-estar entre o presidente e o ex-juiz

Patrícia Campos Mello e Talita Fernandes – Folhapress
Patrícia Campos Mello e Talita Fernandes – Folhapress

Nova Déli e Brasília - O presidente Jair Bolsonaro afirmou nesta sexta-feira (24) na Índia que há "zero chance" de um Ministério da Segurança Pública ser criado "no momento", o que esvaziaria a pasta da Justiça, que abriga as pautas de segurança e tem no comando o ex-juiz federal Sergio Moro. 

 

Moro se consolidou como o ministro mais bem avaliado no primeiro ano do governo Bolsonaro
Moro se consolidou como o ministro mais bem avaliado no primeiro ano do governo Bolsonaro | Marcelo Camargo/Agência Brasil
 


 Ao chegar a seu hotel, Bolsonaro afirmou que "a chance no momento [de criar um ministério da Segurança Pública] é zero, não sei o amanhã, porque na política tudo muda, mas a intenção não é criar ". 




 Conforme o jornal “Folha de S.Paulo” revelou um dia antes, o pedido de recriação da Segurança foi articulado com Bolsonaro antes de sua reunião com secretários estaduais da área, ocorrida na quarta (22) e que reacendeu o processo de fritura de Moro. 


 A discussão sobre o desmembramento da Justiça para criar um Ministério da Segurança Pública criou um mal-estar com Moro, que disse a aliados que poderia deixar o governo caso isso acontecesse. Na Índia, o presidente disse que não se manifestou antes sobre a questão de forma mais enfática porque estava em voo, que levou 25 horas. 


 "Há interesse de setores da política [na criação do ministério], simplesmente recolhemos as sugestões educadamente e dissemos que vamos estudá-las", disse. 


 Conforme aliados do ex-juiz, a sinalização dada por Bolsonaro é de desgosto pelo desempenho do ministro em sua entrevista na segunda (20) ao programa Roda Viva (TV Cultura), na qual não teria sido enfático na defesa do chefe ante críticas de jornalistas. 


 Críticos do ministro no governo viram na entrevista a figura de um candidato a presidente, e não a de um servidor do governo - ou da "causa", como gostam de dizer bolsonaristas mais fiéis. 


 Bolsonaro disse que não chegou a falar com Moro sobre o assunto porque não era necessário. "Não preciso falar com ele, nos entendemos muito bem. Ele tem o seu perfil, outros ministros têm os seus próprios, Brasil está indo muito bem", disse. "Números de segurança pública estão muito bem, e é a minha máxima, em time que está ganhando, não se mexe." 


 O presidente disse ainda que a maior pressão que existe é para a volta dos mistérios do Planejamento e da Fazenda, que foram fundidos para criar o Ministério da Economia. "Se isso [a pressão] se tornar público, vão dizer que eu estou querendo enfraquecer o [Paulo] Guedes."  


Antes de embarcar para a viagem à Índia, Bolsonaro havia voltado a falar sobre a possibilidade de recriação do Ministério da Segurança Pública. Nesse caso, Moro permaneceria à frente da pasta da Justiça e perderia a sua principal bandeira até aqui: a queda nas taxas de homicídios, tendência iniciada ainda na gestão do ex-presidente Michel Temer (MDB) e acelerada agora. 


 O flanco de ataque de Bolsonaro ao ex-juiz é o mesmo do ano passado, quando Moro quase foi demitido no segundo semestre. O presidente ensaiou remover o diretor da Polícia Federal, e Moro se colocou frontalmente contra a ideia. Agora, se o ministério for recriado, a Polícia Federal e outras estruturas automaticamente saem do controle do ex-juiz símbolo da Operação Lava Jato. 

 

Isso tem implicações diversas. A PF acompanha direta ou indiretamente investigações politicamente sensíveis, como aquelas sobre o filho senador de Bolsonaro, Flávio (sem partido-RJ), ou a do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista dela, Anderson Gomes. 


 Então juiz da 13ª Vara Criminal da Justiça Federal em Curitiba, Moro foi convidado por Bolsonaro logo após sua vitória. Ele chegou ao governo com a promessa de que assumiria um "superministério" com a missão de reforçar o combate à corrupção. 


 Apesar do desgaste, segundo o Datafolha, Moro se consolidou como o ministro mais bem avaliado no primeiro ano do governo Bolsonaro, com apoio popular maior do que o do próprio presidente. 

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