Imagem ilustrativa da imagem Bolsonaro, o Capitão do Brasil
| Foto: DHAVID NORMANDO/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO


"O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo."
(Fernando Pessoa)


- Mataram o Bolsonaro!

Era uma tarde nublada de quinta-feira em Londrina. Ouvi a notícia bombástica da voz de uma vendedora ambulante, enquanto caminhava com meu guarda-chuva pelo calçadão da Avenida Paraná. Logo se soube que o candidato presidencial não havia morrido, mas tinha um ferimento profundo, e estava passando por uma cirurgia. O esfaqueador, identificado como Adélio Bispo de Oliveira, não fora linchado pelos apoiadores de Bolsonaro, como alguns poderiam imaginar; longe disso, fora entregue incólume às autoridades policiais.

O tempo fechava. E o Capitão lutava pela vida, numa mesa de operação. Perdeu dois litros e meio de sangue, teve órgãos perfurados, corria sério risco de infecção pelo contato das fezes com a circulação sanguínea. Ficasse o hospital cinco minutos mais distante do lugar do atentado, e Jair Messias Bolsonaro teria morrido no meio do caminho. Fosse o hospital menos aparelhado e, principalmente, a equipe médica menos competente, e o nome do candidato entraria para o rol das tragédias políticas brasileiras.

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| Foto: Raysa LEITE / AFP



Lembro-me de ter pensado, num relance, sobre o curioso destino dos que lutam contra o comunismo. Os três grandes inimigos do império soviético no final do século passado também sofreram atentados: Ronald Reagan em março de 1981, João Paulo II em maio de 1981 e Margaret Thatcher em outubro de 1984. Todos sobreviveram por milagre.

O maior milagre de Jair Bolsonaro, no entanto, não foi sobreviver à facada, mas a tudo mais que se opôs a ele. A classe política estava contra. A grande mídia estava contra. Os grandes partidos estavam contra. As fundações internacionais estavam contra. Os intelectuais e artistas estavam contra. As organizações criminosas estavam contra. Só se esqueceram de combinar com o povo.

Quatro anos antes do atentado de Juiz de Fora, alguns dias depois da vitória de Dilma sobre Aécio nas eleições presidenciais, Jair Bolsonaro tomava água de coco com o general Augusto Heleno Ribeiro Pereira em um quiosque da praia de Copacabana. O capitão disse alguma coisa ao amigo. Heleno levou um susto:

- Você está louco, Jair!

Bolsonaro havia acabado de comunicar ao seu velho amigo e superior hierárquico que seria candidato à Presidência da República em 2018. Diante do espanto de Heleno ("Você precisa ser internado, Jair..."), o capitão calmamente explicou que representaria uma força política irresistível que acabara de se revelar: o sentimento anti-PT, ancorado nos valores conservadores do povo brasileiro. A partir dessa conversa, Heleno iniciou uma série de conversas com outros nomes importantes do Exército, na tentativa de reatar as relações de Bolsonaro com o oficialato, um tanto estremecidas pela personalidade impulsiva do capitão ao longo dos anos.

- Mataram o tenente!

Em 8 de maio de 1970, o tenente Alberto Mendes Júnior, da Força Pública do Estado de São Paulo, ofereceu-se como refém a um grupo de guerrilheiros da Vanguarda Popular Revolucionária, liderados por Carlos Lamarca. Mendes decidiu fazer isso para que seus companheiros policiais, feridos em tiroteio, pudessem buscar atendimento médico. Depois de um dia e meio de caminhada no mato, Lamarca e seus companheiros reuniram-se em "tribunal revolucionário" e decidiram condenar o tenente à morte por traição. Ele foi executado com coronhadas de fuzil pelos guerrilheiros. Tinha 23 anos.

Alberto Mendes Júnior foi morto nas imediações de Eldorado, uma cidadezinha do Vale do Ribeira, onde vivia um jovem estudante de 15 anos chamado Jair. No dia em que Bolsonaro visitou Londrina, no ano passado, eu lhe perguntei sobre a morte do tenente Mendes. Dentro da van em que conversávamos, ele baixou os olhos e se lembrou da comoção causada pela notícia da morte do jovem militar em Eldorado.

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| Foto: Flickr FAMÍLIA BOLSONARO



- Mataram o Celso Daniel!

Quando meu pai me deu essa terrível notícia por telefone, em janeiro de 2002, qualquer um que ousasse dizer que um militar reformado seria eleito presidente da República, com um discurso em defesa dos ideais conservadores, corria o risco de ser chamado de louco e perder todas as amizades. A dominação da esquerda sobre os meios culturais, acadêmicos e midiáticos era praticamente absoluta. Naquele ano, os quatro candidatos presidenciais eram de esquerda, como anunciou orgulhosamente o então presidente Fernando Henrique Cardoso. Entre a intelectualidade brasileira, só havia um - repito: um - homem que nadava contra a corrente esquerdista por meio de seus artigos e livros. Seu nome era Olavo de Carvalho. Se aceitarmos que "as formas literárias criam as estruturas do imaginário popular", concluiremos que a atmosfera cultural necessária para o surgimento da figura de Jair Bolsonaro como líder nacional é obra do filósofo brasileiro radicado na Virgínia. A vitória do Capitão em 2018 estava, de certa forma, prefigurada em livros como "A Nova Era e a Revolução Cultural", "O Jardim das Aflições" e "O Imbecil Coletivo". Mais uma vez, confirma-se a máxima de Hugo von Hofmannsthal: "Nada existe na realidade política de um país que não esteja primeiro na sua literatura".

Segundo a teoria das camadas da personalidade desenvolvida pelo filósofo brasileiro, a 11ª camada é aquela em que "o sujeito se posiciona como uma peça da História, realizando ações que vão modificar o rumo da coletividade humana". É exatamente nesse ponto que Jair Bolsonaro está agora. Desde que o corpo de Celso Daniel foi encontrado naquela estrada de terra da Grande São Paulo, o país entrou numa era em que os valores socialistas corroeram toda a sociedade, de alto a baixo. Depois de uma fase de relativa prosperidade, permitida em grande parte pela estabilização do Plano Real e os ventos favoráveis internacionais, o Brasil foi descendo a ladeira até atingir a marca de 60 mil homicídios por ano (dos quais 92% ficam impunes), o aumento da corrupção em níveis jamais imaginados, o analfabetismo funcional entre diplomados universitários, o estrangulamento da atividade empresarial com impostos criminosos, o fortalecimento assombroso do narcotráfico e o aumento do consumo de drogas, a destruição da alta cultura nacional e, por fim, a tragédia dos 14 milhões de desempregados e 70 milhões de inadimplentes, na dolorosíssima ressaca de uma prosperidade ilusória, quando o crédito acabou e as dádivas se transformaram em dívidas. Jair Bolsonaro foi eleito para iniciar um "turning point" dessa jornada ao abismo. Durante muito tempo, ele foi praticamente o único personagem do mundo político a dizer o tempo todo - à sua maneira por vezes tosca, por vezes agressiva, mas sempre sincera - que não estávamos seguindo a direção certa. Como dizia Joaquim Nabuco, há homens que se perdem pelos defeitos de suas qualidades (como a excessiva gentileza), enquanto outros se redimem pelas qualidades dos seus defeitos. O tosco, o agressivo, o exagerado, o impulsivo capitão Bolsonaro foi escolhido pelo povo por dizer o que as pessoas pensam, embora nem sempre tenham meios ou coragem para manifestar.

"Nós não explicamos as grandes histórias, elas é que nos explicam", dizia o professor José Monir Nasser. Toda grande história tem o momento da descida aos infernos. Nós tivemos várias: do Mensalão ao Petrolão; do título de país mais assassino ao título de país mais burro; do impeachment de Dilma à candidatura do presidiário. Jair Bolsonaro também teve as suas descidas ao inferno, e a última delas aconteceu no atentado de Juiz de Fora. A milagrosa sobrevivência do Capitão deve significar alguma coisa; talvez seja um daqueles sinais que Deus vive enviando aos seus filhos pródigos - nós.

A morte é a grande pedagoga. Com ela aprendemos a viver melhor, a cometer menos erros, a corrigir velhos vícios. Nos últimos 15 anos, o Brasil mergulhou nos abismos da morte. Milagrosamente estamos vivos. Talvez estivéssemos precisando de alguém que na sua vida pessoal também passou por essa luta com o anjo da morte. Talvez fosse necessário escolher alguém como o centurião de Cafarnaum, o militar pagão que disse a Jesus: "Eu não sou digno de que entreis em minha morada".

Não custa lembrar que, na hierarquia militar romana, o posto de centurião equivale ao de capitão. O centurião de Cafarnaum não pediu nada para si. Ele só queria a cura de um servo a quem muito prezava. Talvez possamos imaginar esse servo doente como a imagem do Brasil em 2018. Não é preciso sequer que Jesus venha à nossa morada; basta ele dizer uma palavra, e o centurião será perdoado, e o servo será salvo.

No livro "Mensagem", Fernando Pessoa dedica um de seus poemas ao mito de Ulisses, que seria, segundo uma antiquíssima lenda, o fundador da cidade de Lisboa ("Olissipona", cidade de Ulisses). São os versos que abrem esse texto. A palavra "mito", com a qual o presidente eleito é saudado por seus correligionários, tem um significado ambíguo. Daí a afirmação de Pessoa: "O mito é o nada que é tudo". O mito pode ser uma mentira inferior ou uma verdade superior; há o mito que ilumina e o mito que engana. Por esse motivo, o poeta utiliza a imagem do sol: "O mesmo sol que abre os céus / É um mito brilhante e mudo." O sol pode iluminar e aquecer, mas também pode queimar e cegar. Fonte de vida, ele é ambíguo como a vida.

Não basta descer ao inferno. Não basta ser um mito. Para exercer um papel efetivo na história, o homem deve ter a humildade de saber aprender com os próprios erros e com os erros dos outros. Depois de descer ao inferno, Ulisses continuou navegando até retornar para sua família em Ítaca. Winston Churchill - cujo livro estava sobre a mesa de Jair Bolsonaro dias atrás - dizia: "Ao passar pelo inferno, continue caminhando".

Agora, a tarefa que Jair Bolsonaro tem pela frente é grande, complexa, incomensurável, muito maior do que ele. Só o tempo e as escolhas dirão se elegemos um mito que ilumina ou um mito que engana. Mas, se as esperanças do povo estiverem certas, aquela quinta-feira nublada em que o capitão lutou contra o anjo da morte se converterá em um dia de sol. E nesse dia, talvez, Jair Bolsonaro se lembrará do tenente Alberto Mendes Júnior, que ele um dia conheceu e admirou no Vale do Ribeira - e que depois da morte foi promovido a capitão.

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