Bolsonaro elenca prioridades para cem dias de gestão
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segunda-feira, 31 de dezembro de 2018
Vitor Struck<br>Reportagem Local 

Enquanto as atenções estavam voltadas para os preparativos da cerimônia de posse a equipe do Presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) divulgou um documento onde aponta um roteiro a ser seguido nos primeiros cem dias de gestão. Segundo o documento os primeiros dias serão de "reconhecimento" de cada Ministério, quando poderá ser feita uma grande reavaliação de medidas tomadas por Michel Temer (MDB) nos últimos dois meses.
Elencados na "Agenda de Governo e Governança Pública", as medidas incluem diretrizes sobre a utilização de benefícios como auxílio-moradia, viagens internacionais, cartões corporativos, e até tópicos sobre nepotismo. Além de estabelecer reuniões semanais entre os membros da cúpula do Governo.
No documento as ações prioritárias que precisam de aprovação legislativa estão programadas para serem enviadas ao Congresso dentro dos primeiros dois meses de gestão, ficando o primeiro balanço para o 100º dia.
Questionado sobre possíveis dificuldades de se negociar com o Congresso as principais reformas, especialmente a da Previdência, considerado um "ponto fraco" de Bolsonaro por conta de seu discurso rígido, o cientista político e professor da Universidade Presbiteriana Makenzie, Rodrigo Prando, avalia que o futuro presidente, na verdade, pode ter até mais facilidade na negociação do que Temer, Dilma e até Lula, em função de encontrar uma bancada mais conservadora.
"Fez a segunda maior bancada do Congresso que é o PSL, tem apoio do agronegócio, tem apoio da bancada dos militares e tem apoio da bancada evangélica. Nós vamos perceber a força do Bolsonaro e como a oposição vai se contrapor a essa força ao longo das votações, claro que a Reforma da Previdência vai significar o maior embate dentro do Congresso", avalia.
Nesse sentido o professor afirma que uma provável "estratégia" do Executivo seja justamente colocar em pauta temas de caráter majoritariamente ideológico, para "testar" os deputados federais. "A ideia da Escola Sem Partido, a questão da flexibilização do Estatuto do Desarmamento e a questão da maioridade penal", exemplifica.
Ao mesmo tempo pondera que, se a conduta de Bolsonaro ficar mais ligada ao "pragmatismo" de Paulo Guedes e à "legalidade" de Sérgio Moro, "talvez estes temas ideológicos fiquem mais para o discurso e menos para a prática política governamental", diz. Embora o presidente eleito já tenha afirmado em seu Twitter que deve facilitar a posse de armas a quem não tem antecedentes criminais por meio de decreto.
Quanto ao relacionamento entre os poderes o cenário ainda vai depender de uma "dança das cadeiras" que envolve 32 parlamentares aptos a trocarem de legenda, cujos partidos não atingiram a cláusula de barreira da minirreforma eleitoral de 2015 e por isso perdem o direito a acessarem a verba do fundo partidário e ao tempo de propaganda. É o caso de siglas como o PCdoB, Rede, Patriotas, PHS, PRP, PMN, PTC, PPL e DC. Por conta disso o PSL, segunda maior bancada, espera ultrapassar a do PT, que tem 56 deputados, e diminuir a oposição a Bolsonaro na Casa. No Senado federal nove nomes se encontram na mesma situação.
Discurso do "antissistema" não se confirmou completamente na reforma ministerial
Passado o período de transição Prando avalia que aquele discurso de campanha que defendia "desemparelhar" o alto escalão do Executivo, em um total contraponto às administrações petistas, já encontrou um equilíbrio com prática encabeçada pela troca de favores. A meta era cortar pela metade o número de Ministérios, entretanto a gestão do ex-militar deverá ter início com 22 pastas, o que ainda é um número menor do que os 29 anteriores.
"É impossível fazer política no Brasil sem você ter relação com a Câmara dos Deputados e com o Senado Federal então ele tem que ceder ao toma lá, da cá como todos tiveram.
Entretanto, nesse sentido, o professor compreende que o vento sopra a favor de Bolsonaro que permaneceu independente durante as eleições, o que foi até ingenuamente ratificado pelo seu vice, Hamilton Mourão, enquanto estava hospitalizado.
"Agora ele tem mais força do que os outros para tentar evitar isso porque, convenhamos, ele não ganhou nada de nenhum partido, nem tempo de TV para chegar à Presidência da República. Agora para governar um País com um Congresso tão multifacetado se não negociar, se não ceder cargos no primeiro e no segundo escalão não tem votação, nenhum tipo de avanço nas políticas que Bolsonaro quer implantar", avalia. (V.S./Colaborou Guilherme Marconi)


