Brasília - O presidente Jair Bolsonaro afirmou nesta sexta-feira (15) que, na reunião ministerial gravada em 22 de abril, tratou de interferência em órgãos de segurança do governo por causa de insatisfação com sua proteção pessoal. Ele negou ter falado em ingerência na Polícia Federal para ter acesso a relatórios de inteligência da corporação.

No entanto, a gravação do encontro entregue pela AGU (Advocacia-Geral da União) ao STF (Supremo Tribunal Federal) indica que o mandatário se referia à ingerência na área de inteligência da corporação.

"Eu espero que a fita se torne pública, para que a análise correta venha a ser feita. A interferência não é no contexto da inteligência não, é na segurança familiar. É bem claro, segurança familiar, eu não toco PF na palavra, nem Polícia Federal, na segurança...", declarou Bolsonaro, que usava uma máscara em homenagem a policiais federais.

Imagem ilustrativa da imagem Bolsonaro diz que 'interferência' era na segurança, mas transcrição trata da área de inteligência
| Foto: Marcos Correa/PR

De acordo com o presidente, quando disse na reunião de abril "por isso vou interferir, ponto final", ele estava se referindo ao GSI (Gabinete de Segurança Institucional), ministério comandado pelo general Augusto Heleno e que é responsável por sua proteção.

Apesar de dizer que tratou de interferência na parte da sua segurança pessoal, a transcrição entregue pela AGU traz a palavra PF num contexto de insatisfação com a falta de informações de inteligência.

"Pô, eu tenho a PF que não me dá informações; eu tenho a inteligência das Forças Armadas que não tem informações; a ABIN tem os seus problemas, tem algumas informações, só não tem mais porque tá faltando realmente temos problemas aparelhamento etc. A gente não pode viver sem informação (...)"

"E me desculpe o serviço de informação nosso – todos - é uma vergonha, uma vergonha, que eu não sou informado, e não dá para trabalhar assim, fica difícil. Por isso, vou interferir. Ponto final. Não é ameaça, não é extrapolação da minha parte. É uma verdade", completou.

Bolsonaro foi questionado por jornalistas por que, no início desta semana, afirmou que, na reunião ministerial, não havia a palavra Polícia Federal - o que a transcrição da AGU contradiz.

"Palavra PF, duas letras", respondeu Bolsonaro. Indagado novamente que a sigla PF se refere a Polícia Federal, Bolsonaro disse: "Cara, tem a ver com a PF, mas é reclamação PF no tocante ao serviço de inteligência".

Esta frase do mandatário conflita com outro trecho da mesma entrevista, quando ele diz que, ao ter declarado "vou interferir e ponto final", referia-se a preocupação com sua segurança pessoal feita pelo GSI.

Bolsonaro encerrou a entrevista quando os repórteres tentaram perguntar, se considerando que sua insatisfação era direcionada ao GSI, o chefe da pasta, Augusto Heleno, teria se recusado a fazer trocas em sua segurança pessoal.

ATAQUE À IMPRENSA

Durante a rápida entrevista na manhã de sexta-feira em frente ao Palácio da Alvorada, Bolsonaro exibiu cópias das manchetes dos principais jornais do país, inclusive a Folha, e reclamou da cobertura feita do inquérito do STF originário das acusações de seu ex-ministro da Justiça, Sergio Moro.

Ele disse por mais de uma vez que não responderia a um interrogatório dos repórteres e se referiu a uma das perguntas feitas por um profissional como "palhaçada".

Ao pedir que sua fala no encontro ministerial seja tornada pública, o presidente fez uma ressalva e defendeu que o sigilo seja mantido em trechos que têm relação com "política externa e segurança nacional".

A transcrição foi entregue na quinta-feira (14) pela AGU ao ministro do STF Celso de Mello, relator do inquérito que apura as acusações feitas por Moro contra Bolsonaro.

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