Curitiba - A derrota na eleição presidencial e a ida do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para os Estados Unidos não representam o fim do movimento que ficou conhecido desde 2018 como bolsonarismo no mundo político nacional. Para analistas ouvidos pela FOLHA, a força eleitoral deverá ser mantida, mas outros nomes e outros partidos além do PL poderão ganhar destaque no espectro político que vai da centro-direita à extrema direita.

O PL saiu da eleição de 4 de outubro com as duas maiores bancadas do Congresso – 121 deputados federais e 19 senadores eleitos. No segundo turno da eleição presidencial, a direita teve 59.826.041 votos, 48,21% do total. Resta saber quem terá habilidade para herdar esse capital político, pois a avaliação é que Flávio Bolsonaro abriu mão de liderar a oposição – como ele mesmo previu após a eleição – ao embarcar para a Flórida.

O desafio será manter a unidade da maioria construída em 4 de outubro. Somando-se os partidos mais à direita (PL, Novo e Republicanos), são 172 de 513 deputados federais e 24 de 81 senadores. Manter a base coesa foi uma das dificuldades enfrentadas pelo então presidente Jair Bolsonaro, eleito pelo PSL em 2018. Muitos dos nomes eleitos na “onda bolsonarista” que tomou conta da eleição tinham pouca experiência para manter a base unida. Restou a Bolsonaro atrair o centrão para a base de seu governo.

TARCISIO GANHA FORÇA

“Não há vácuo em posição de poder. A fuga de Flávio prejudica o capital político da família Bolsonaro, que pode perder espaço e influência para a figura de Tarcisio de Freitas (Republicanos-SP), governador reeleito de São Paulo”, diz o cientista político Gabriel Marcondes. “O bolsonarismo continuará como força política relevante no país, mas após duas derrotas seguidas deve vir a reboque de outra figura em 2030, ao invés de ser a cabeça de uma chapa majoritária.”

Para a cientista política Karolina Roeder, o cenário já é de disputa pela liderança. “O bolsonarismo dificilmente desaparece como força eleitoral, porque tem uma base social e identitária consolidada, mas tende a perder centralidade como comando político único da direita. A disputa pela liderança já está em curso. Michelle Bolsonaro (PL-DF), que conta com o apoio de Valdemar Costa Neto e do PL, e Tarcísio de Freitas, que tem a máquina de São Paulo e trânsito no centrão e no mercado, já se movimentam para ocupar esse espaço”, diz a professora na Uninter e pesquisadora do INCT ReDem (UFPR).

O Republicanos e Tarcísio de Freitas podem ser grandes os beneficiados. “Tarcísio combina capital eleitoral próprio, desempenho administrativo e uma imagem mais moderada, que dialoga com o eleitor de centro-direita e com partidos do centrão que desejam se descolar do sobrenome Bolsonaro”, afirma Karolina Roeder. “A pergunta central é se esse campo conseguirá preservar a base mobilizada do bolsonarismo sem herdar seus custos políticos e jurídicos. Quem equilibrar melhor essa equação tende a liderar a oposição rumo a 2030.”

Professor do curso de Direito da PUCPR em Londrina e cientista político, Mário Sergio Lepre avalia que o PL manterá sua hegemonia, apesar de poder a vir a ter seu registro questionado nos próximos meses – nesta semana, o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Flávio Dino determinou a abertura de um inquérito pela Polícia Federal para investigar a possível interferência estrangeira na campanha de Flávio Bolsonaro.

“O bolsonarismo não perde força política. É consolidado, é algo que está dentro da estrutura do ambiente social. E o PL deve manter o protagonismo”, diz Lepre. “Mas, quando se começa a atuar nessa linha (de abrir um inquérito), basicamente as provas aparecem. Eu busco, coloco e planto. Qual é o resultado disso? De interferência externa de alguma coisa, e o resultado disso é a cassação do registro.”

Analistas avaliam que a fuga de Flávio prejudica o capital político da família Bolsonaro e quem pode perder espaço e influência é o governador de São Paulo, Tarcisio de Freitas (Republicanos-SP)
Analistas avaliam que a fuga de Flávio prejudica o capital político da família Bolsonaro e quem pode perder espaço e influência é o governador de São Paulo, Tarcisio de Freitas (Republicanos-SP) | Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

PAPEL DE FLÁVIO BOLSONARO

Flávio Bolsonaro tende a perder capital político por estar ausente, diz Gabriel Marcondes. “Flávio pode falar o que quiser, mas não terá apoio ou legitimidade para liderar a oposição no Brasil. Valdemar (Costa Neto, presidente do PL), Marinho (Rogério Marinho, senador do PL do Rio Grande do Norte), Tarcisio e o PL como um todo já aceitaram o resultado eleitoral e falam em seguir a vida. Flávio e Eduardo (Bolsonaro) estão isolados politicamente.”

Para Karolina Roeder, dois fatores fragilizam Flávio: a ausência e as constantes mudanças de direção. “O desfecho eleitoral e a saída do país o enfraquecem como articulador no Brasil. O segundo fator é um padrão de recuos e idas e vindas, o que prejudica a credibilidade de quem se apresenta como líder. Liderar a oposição exige presença, coerência e capacidade de manter a mobilização no longo prazo, e isso se constrói no cotidiano da disputa política. Dificilmente se sustenta à distância ou por autoproclamação.”

Na avaliação de Mário Sergio Lepre, a autoproclamação de Flávio como presidente (depois ele recuou e se colocou como líder) é menos importante que sua saída do país. “O que importa não é a declaração em si, mas o fato de ter que sair do Brasil, porque havia uma ordem de apreensão do seu passaporte. Obviamente que ela foi apresentada logo depois do fechamento da apuração. Isso é extremamente grave”, diz. “A ideia de apreensão do passaporte é você não deixá-lo sair para que depois houvesse outra operação, no sentido de busca e apreensão. Com busca e apreensão há apreensão de celulares, de equipamentos eletrônicos.”

ALINHAMENTO

Nos bastidores, deputados estaduais que fizeram parte da base de apoio a Ratinho Junior na Assembleia Legislativa do Paraná avaliam que o PSD do governador ficou “no meio” da disputa entre Flavio Bolsonaro e o presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) – e também na disputa local entre Sergio Moro (PL) e Requião Filho (PDT). A bancada caiu de 19 para 14 deputados, enquanto o PL passou de 12 para 14. A tendência é que os apoiadores de Ratinho Junior reeleitos em 4 de outubro migrem para a base de apoio ao governo de Sergio Moro, que deverá ter apenas PT e PDT na oposição (nove deputados).

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