Bispos cobram CPI da corrupção
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou ontem uma nota oficial cobrando uma apuração imediata e transparente da corrupção envolvendo os três poderes da República, com a utilização de instrumentos legais como a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) no Congresso Nacional. O presidente da CNBB, dom Jayme Chemello, disse que a corrupção poderá levar a uma reação institucional, ao ponto de fechar o Congresso. E ninguém vai reclamar!, previu ele.
A nota, intitulada Pela Ética e Dignidade na Política, foi divulgada um dia depois que o Palácio do Planalto enviou um emissário à CNBB para tentar convencer os bispos de que a CPI não é necessária. O advogado-Geral da União, Gilmar Mendes, foi quarta-feira à CNBB dizer aos bispos que a criação de uma CPI não seria bom para o País, segundo relatou dom Chemello. O bispado respondeu a Mendes que o governo deveria liberar os parlamentares para criar a CPI. Reafirmamos que faz muito mais mal deixar a corrupção impune, disse dom Chemello.
Na nota, os bispos da CNBB dizem que estão acompanhando estarrecidos as denúncias de corrupção. Aliada ao crescente empobrecimento do povo, esta situação corrói as bases da democracia, gera instabilidade política e aumenta a insegurança. Para a CNBB, deixar de apurar denúncias e elucidar fatos, mantendo-os encobertos, favorece o descrédito das instituições e o desgaste da função pública.
Dom Chemello disse que o ex-presidente do Congresso, senador Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA), e o atual, Jader Barbalho (PMDB-PA), fizeram acusações muito graves que têm de ser investigadas, deixando os bispos perplexos. Para dom Chemello, é necessário que se apure as responsabilidades e que se puna as pessoas, mesmo as que supostamente estariam apresentando denúncias falsas.
A CNBB não aceita os argumentos do governo de que a criação de uma CPI poderia abalar a economia. Quando deixamos a corrupção caminhando, abala tudo, disse. Dom Chemello enviou um recado também à oposição. O bispo disse que é necessário que os Estados aceitem que se criem CPIs para investigar a corrupção local, inclusive em São Paulo. Dom Chemello disse que no Rio Grande do Sul não querem CPI. O bispo acrescentou que o Judiciário e a Polícia Federal também têm que reforçar as investigações. Fazendo referência ao ex-presidente do Fórum Trabalhista de São Paulo, Nicolau dos Santos Neto, o bispo afirmou que muito dinheiro vai para paraíso fiscal e o povo passa fome.
O secretário-Geral da CNBB, dom Raymundo Damasceno, criticou a decisão do governo em liberar recursos de emendas de parlamentares da base aliada justamente no momento de maior ameaça da CPI. O dinheiro público não pode servir de barganhas políticas, disse dom Damasceno. Numa referência ao PMDB, dom Chemello disse que os partidos políticos deveriam investigar os corruptos que eventualmente possam existir em suas bases.
Para dom Chemello, a corrupção é uma realidade endêmica no País e é necessário que a Presidência da República, o Congresso e o Judiciário se unam para investigá-la, para que a população não fique duvidando dos poderes. O bispo criticou o Judiciário por soltar grandes bandidos, com o argumento de que não representariam riscos para a sociedade, numa clara referência ao senador cassado Luiz Estevão. Se é ladrão de galinha os juízes não peguntam se é perigoso. O bispo criticou o chamado neoliberalismo e afirmou que atualmente o País tem um único dono, que é o capital financeiro.





