Bisca denuncia escuta em seu gabinete
PUBLICAÇÃO
sábado, 18 de janeiro de 1997
Josiane Schulz Especial para a Folha 
Folha de Londrina
Araponga de plantãoBisca (acima) no gabinete e, ao lado, o equipamento encontrado no teto da sala e que vai ser periciado pelo Instituto de Criminalística
O prefeito de Arapongas, José Aparecido Bisca (PDT), denunciou ontem a existência de uma escuta eletrônica em seu gabinete. A descoberta, segundo o prefeito, foi feita pelo funcionário público José Carlos Batista, que suspeitou de uma conversa entre o vice-prefeito Sérgio Kummel e o vereador Graça Junior (PDT), que ele captou através de um aparelho de rádio.
José Carlos ouviu a conversa ao meio-dia e, duvidando tratar-se de uma entrevista, dirigiu-se ao gabinete do prefeito, onde estavam Kummel e Graça Júnior. Após alguns testes, eles constataram que tudo o que era falado no gabinete podia ser ouvido pelo rádio. Ao vasculhar a sala, foi descoberto um sistema de escuta eletrônica dentro do forro. O som chegava até um microfone sem fio através de um furo feito acima da mesa do prefeito. Esse sistema, conhecido por babá eletrônica, utilizava a antena de televisão da própria prefeitura, o que aumentava seu potencial de transmissão de 600 metros para três quilometros.
Durante a tarde, a polícia técnica, do Instituto de Criminalística de Londrina, esteve vistoriando o gabinete do prefeito. Os técnicos confirmaram a existência da escuta eletrônica e recolheram o equipamento para analisá-lo. O chefe do setor de Engenharia Legal do Instituto, Luciano Bucharles, disse que os laudos da perícia, que ficam prontos na próxima semana, vão fundamentar a abertura do inquérito e as investigações sobre o caso, que serão feitos pela delegacia de Arapongas.
Bucharles e o chefe técnico do Instituto de Criminalística, Geraldo Gonçalves de Oliveira Filho, responsáveis pela vistoria, constataram que o equipamento deveria ter sido instalado há cerca de um mês e que funcionava 24 horas por dia. Qualquer pessoa que sintonizasse o rádio na frequencia do aparelho poderia ouvir as conversas que aconteciam dentro do gabinete, explicou Bucharles.
As conversas
podiam ser
captadas a uma
distância de 3 km
O prefeito José Aparecido Bisca disse que já havia observado a existência do furo no teto do gabinete, mas nunca se preocupou. Ele acredita na possibilidade de este episódio estar ligado à ameaça de morte que recebeu na quarta-feira, através de um telefonema atendido por sua prima, Ivone Fantin. Na opinião de Bisca, todos esses acontecimentos podem estar relacionados à auditoria interna que foi instaurada por ele, para averiguar possíveis irregularidades da administração anterior, de Valdir Pugliesi.
Essa auditoria tem o objetivo de averiguar as contas da prefeitura. Recebemos a prefeitura com uma dívida de R$ 14,7 milhões. Um valor inadmissível, já que não foram realizadas grandes obras. Queremos descobrir o por quê desta dívida e, se forem constatadas irregularidades, punir os culpados, afirmou o prefeito.
O prefeito nomeou uma comissão para para apurar a responsabilidade sobre a escuta eletrônica. A comissão é composta pelo procurador geral do município, João Graça, pelo secretário de Administração e Finanças, Eduardo Alberto Fernandes, e pela advogada da prefeitura, Elizabete Ruiz. Segundo João Graça, os responsáveis pelo crime serão enquadrados no Código Penal (artigo 151, parágrafo 1º, incisos 2 e 4), que prevê pena de um a três anos de detenção.
O ex-prefeito Waldir Pugliesi (PMDB) interpreta a descoberta da escuta clandestina como uma armação política contra ele. São manobras para me destruir. É uma palhaçada desses caras que fraudaram a eleição, afirmou.


