Bill Clinton fará relações públicas
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sábado, 11 de outubro de 1997
Agência Folha 
Washington e São Paulo
Arquivo FolhaComércioClinton: prioridade do presidente americano é não perder o mercado da AL para os países europeusJames Reston, o mais influente jornalista norte-americano do século, dizia que seus compatriotas são capazes de fazer qualquer coisa pela América Latina, menos ler a respeito. Por analogia, pode-se dizer que o governo dos Estados Unidos é capaz de fazer qualquer coisa pela América Latina menos colocá-la como prioridade em sua política externa, exceto quando ela é percebida como ameaça à sua segurança nacional.
Bill Clinton parte amanhã de Washington para sua primeira viagem como presidente à América do Sul. Como a maior parte das visitas de seus antecessores à região, esta também será mais um esforço de relações públicas do que uma missão de trabalho substantivo. O grande projeto da atual administração norte-americana para o hemisfério é a Alca (Área de Livre Comércio das Américas). Em tese, a Alca deve entrar em operação em 2005. Mas o Brasil não parece muito interessado, pelo menos no curto prazo.
Quanto aos Estados Unidos, embora Clinton deseje materializar a Alca o mais depressa possível, enfrenta grandes dificuldades políticas internas e tem muitas outras prioridades domésticas e externas. Clinton chega à Venezuela, Brasil e Argentina sem poder garantir que terá a autoridade da via rápida (fast track) em mãos para comprometer os Estados Unidos com a idéia da Alca. Em 1994, Clinton anunciou que o Chile seria incorporado ao Nafta (Acordo de Livre Comércio da América do Norte) e já se falava que se seguiria a Argentina. Em abril de 98, quando todos os líderes do hemisfério (menos Cuba) se reunirem de novo, em Santiago, o Chile continuará de fora do Nafta. Nesse meio tempo, a Argentina se comprometeu decididamente com o Mercosul, e o Chile já está com um pé nele.
Para os Estados Unidos, a perda de espaço comercial na América do Sul é um dado relevante. Afinal, exportam mais, por exemplo, para os 14 milhões de chilenos do que para os 900 milhões de indianos. E a aproximação cada vez maior da Europa com o Mercosul os incomoda. (A América Latina) é um mercado natural para os Estados Unidos, mas não é um mercado que se possa tomar por assegurado, chegou a dizer Thomas McLarty, conselheiro de Clinton.
O grande objetivo de Clinton é ajudar, com um intenso trabalho de relações públicas, a desmontar a oposição interna (inclusive no seu próprio partido) à idéia de integração hemisférica. A esperança de seus assessores é que o presidente mostre ao público norte-americano, via mídia, que a América Latina mudou. É agora democrática, aberta, confiável, moderna, importante. Mas não vai ser fácil porque, como disse Reston, o John Doe (José da Silva) do Meio-Oeste dos Estados Unidos não tem o menor interesse em saber o que se passa no extremo Sul.
Para não mencionar o fato de que os vizinhos de baixo, afinal, são considerados parceiros naturais, mesmo quando seus mercados não possam ser tomados como assegurados.
Não podem mesmo, a julgar pelas resistências do governo brasileiro à Alca. O chanceler Luiz Felipe Lampreia supõe que Alca e comércio serão intensamente discutidos durante a visita de Clinton. Mas discutir está longe de significar concordar. Não teremos a menor dificuldade em explicitar nossos pontos de vista, disse Lampreia. Todos sabem que são pontos de vista diferentes dos de Washington, que tem pressa em abrir os mercados latino-americanos.
Para o governo brasileiro, mais importante é dar à discussão um caráter global. Fernando Henrique Cardoso aproveitará a visita de Clinton e a tempestade cambial no Sudeste Asiático para retomar tese que vem defendendo desde a posse, qual seja, a necessidade de algum controle sobre o fluxo de
capitais.
Sabe que não é tese que os norte-americanos apreciem, mas, de todo modo, é a maneira de tratar de enfatizar que o Brasil não é a Tailândia. Claro que Clinton sabe disso, mas a mensagem destina-se menos a ele e mais aos investidores norte-americanos.
FHC quer também discutir a reforma da ONU (Organização das Nações Unidas). Não a vaga no Conselho de Segurança que o Brasil reivindica. Sabe que Clinton não respalda a postulação brasileira (prefere que se construa um consenso na região sobre quem deve representá-la). FHC quer debater todo o processo de reforma, inclusive o financiamento da ONU, um discreto lembrete de que os Estados Unidos não pagam devidamente suas contribuições. Os dois querem conversar sobre meio ambiente, outro tema em que as posições não coincidem.


