O ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra, entregou ontem o cargo durante numa entrevista coletiva, surpreendendo até o presidente Fernando Henrique Cardoso. Pouco antes, os dois haviam conversado durante uma hora, no Palácio da Alvorada, mas a demissão não havia sido cogitada. Porém, o presidente alertou o ministro sobre os constrangimentos causados pela permanência dele no governo, o que pesou na decisão de Bezerra.
Acusado de receber financiamento da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) para um projeto da empresa Metais do Seridó SA (Metasa), da qual foi sócio entre 1989 e 1998, Bezerra preferiu atribuir a saída do governo à falta de apoio político do partido dele, o PMDB. Ele também anunciou a desfiliação da legenda e a decisão de assinar a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar corrupção. ‘‘Deixarei hoje de ser o lixeiro do ministério, mas nunca serei o lixo’’, afirmou Bezerra, rebatendo as denúncias.
‘‘Saio do governo porque faltou a solidariedade do meu partido’’, insistiu. Assim que acabou a entrevista, Bezerra ligou ao presidente informando sobre a decisão. Fernando Henrique disse estar surpreso e que havia acompanhado pela televisão a decisão do ministro. Pelo porta-voz Georges LamaziSre, o presidente disse que considerou Bezerra convincente nas explicações e reforçou que, na conversa, o ministro não antecipou a decisão de renunciar. Segundo o porta-voz, o presidente não considera de modo algum uma traição o fato de ele assinar a CPI.
Mas um dos principais motivos da decisão inesperada de Bezerra foi a conversa com Fernando Henrique. Num primeiro momento, os dois ficaram sozinhos. Logo depois, chegaram os ministros-chefes da Secretaria-Geral da Presidência da República, Aloysio Nunes Ferreira, e da Casa Civil, Pedro Parente.
Fernando Henrique falou que, se ele permanecesse no cargo, seria execrado, induzindo, dessa forma, que Bezerra deixasse o governo. O presidente sugeriu o afastamento de Bezerra, como fez o então ministro da Casa Civil, Henrique Hargreaves, no governo do ex-presidente Itamar Franco. Mas ele rejeitou a proposta.
Por Parente, Bezerra foi questionado pelo fato de morar numa casa da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Com a decisão do ministro em não pedir a demissão, o presidente sugeriu esperar a repercussão na mídia da entrevista que estava marcada para só depois fazer uma nova avaliação do caso. Fernando Henrique se despediu de Bezerra, no Palácio da Alvorada com um econômico ‘‘boa sorte’’.
Na entrevista, o ministro contou que, desde que saíram as denúncias contra ele, no sábado, não recebeu de nenhum ‘‘integrante da dita cúpula do PMDB’’ nem qualquer telefonema de apoio. ‘‘Saio do governo porque, talvez, eu tenha me dedicado mais ao interesse País do que ao meu partido’’, afirmou Bezerra, deixando no ar uma insinuação contra o PMDB. ‘‘No momento, não quero entrar em detalhes pequenos’’, provocou.
Sobre a decisão de apoiar a CPI, Bezerra negou que o motivo seria uma retaliação a Fernando Henrique. Para isso, ele pedirá a inclusão, na CPI, do caso do financiamento concedido pela Sudene à Metasa, da qual foi sócio. ‘‘Qual a única forma de lavar a minha honra? Pedindo que me investigue’’, disse o ministro, ao justificar o apoio à CPI.

mockup