Curitiba - O governador do Estado, Roberto Requião (PMDB), entrou e saiu da Assembléia Legislativa, ontem, sem falar com a imprensa. Já o prefeito de Curitiba, Beto Richa (PSDB), foi para o ataque. Questionado sobre o fato do Requião ter dito que suspendeu os repasses para a Capital porque a administração municipal teria dívidas com o Estado, Beto disse que o governador está tentando apenas ''criar uma justificativa''. ''Ele se refere a uma dívida que existe há décadas'', afirmou. ''A característica política dele só vem a reforçar o seu espírito autoritário e absolutista''. Os repasses, segundo o prefeito, teriam sido cortados após a eleição, quando ele declarou apoio ao adversário de Requião nas urnas, o senador Osmar Dias (PDT).
Segundo Beto, os curitibanos saem ''prejudicados'' do episódio. ''O povo de Curitiba tem que pagar a conta? O governador deveria ter o mínimo de responsabilidade, fazer jus ao cargo que exerce. Se for assim, o que vai acontecer com Londrina, onde 70% do eleitorado votou no Osmar Dias?'', atacou. Ao contrário do que Requião afirmou sobre os repasses, que eles de fato foram suspensos, o secretário-chefe da Casa Civil, Rafael Iatauro, voltou ontem a dizer que os cortes que ocorreram se devem às reformas estruturais de início de mandato e que não há ''discriminação'' em relação a Curitiba.
O vice-governador, Orlando Pessuti (PMDB), também tentou apaziguar os ânimos. ''A conciliação é difícil, mas nós já tivemos atritos e crises políticas muito mais complexos e depois se consertou'', comentou Pessuti, ao fazer referência aos ex-deputados estaduais Rafael Greca (PMDB) e Hermas Brandão (PSDB), ex-rivais e atuais aliados de Requião.
Durante a entrevista, Richa também criticou o peemedebista Doático Santos, que ontem, no Centro da Capital, distribuía panfletos que faziam referências ao episódio do DER e atacavam o prefeito. Após as eleições, Requião nomeou Doático Santos, que já não se entendia com Beto, para assumir uma espécie de assessoria especial responsável por acompanhar as obras que a prefeitura realizava em parceria com o governo. ''Ele é um cidadão desqualificado, que vive nos bares caído, eu não posso polemizar com gente assim. Requião escolheu um representante à sua altura'', disparou.
Enquanto Beto e Requião se evitavam na abertura dos trabalhos da Assembléia Legislativa, o site da agência oficial de notícias do governo do Estado publicou uma cópia da ordem de pagamento do Departamento de Estradas de Rodagem (DER) à construtora DM, em dezembro de 2002, pelos serviços de duplicação da rodovia Curitiba-Garuva. O pagamento foi no valor de R$ 10 milhões, conforme a nota emitida pelo DER em favor da DM. Segundo a acusação de Requião, o serviço já havia sido pago. O dinheiro, segundo ele, foi destinado à campanha eleitoral de Beto, que disputava o governo do Estado na época.
O então diretor do DER era José Richa Filho, hoje secretário da Administração na prefeitura de Curitiba. Richa Filho disse à FOLHA que não houve irregularidade na operação. ''A ordem de pagamento recebeu pareceres do Ministério Público e do Tribunal de Contas. Aliás, o presidente do TC na época era Rafael Iatauro (atual secretário-chefe da Casa Civil)'', argumentou. ''O governador tem sempre que inventar a versão dos fatos. Ele está me usando para desconstruir a imagem do prefeito'', emendou, lembrando que no ano que vem há eleições municipais. Richa Filho frisou ainda que a autorização de pagamento não dependeu apenas dele. Foi necessário aval do conselho do DER e também do governador, devido ao alto valor do pagamento.
Sobre a criação da CPI para investigar o destino do pagamento feito pelo DER à DM, o prefeito comentou que é favorável à proposta, mas defendeu também CPIs para apurar ''supostos superfaturamentos em obras e compras'' no Estado. (Colaborou Maria Duarte)

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