Bergmann quer evitar que o capitalismo se fortaleça
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
Fábio Galão<BR>Equipe da Folha 
Curitiba - O gaúcho Luiz Felipe Bergmann, 48 anos, é servidor público federal e concorre pela segunda vez ao Governo do Estado. Atuou nos movimentos estudantil e sindical no Rio Grande do Sul e em 1986 foi para Toledo, onde estudou Economia. Em 1993 mudou-se para Curitiba, onde se formou em Direito. Em 2003 saiu do PT, no qual havia ingressado em 1984, para ajudar na criação do PSol. Além da candidatura ao Governo do Estado em 2006, foi candidato a vereador em Toledo e Curitiba, mas não conseguiu se eleger.
Levantamento feito pela FOLHA mostrou que 29% dos municípios paranaenses não têm hospital, e a maioria dos que têm não possui estrutura para atendimentos de grande complexidade. Como o senhor planeja reverter essa situação e com quais recursos?
O primeiro passo é desprivatizar a saúde. A saúde no Paraná está sendo paulatinamente privatizada. O Estado investe, mas esses recursos em grande parte vão para empresas privadas. Recurso público tem que ir só para órgão e empresa públicos. Entendemos que hoje não são poucos os recursos investidos em saúde, mas, se necessário, vamos buscar (recursos) no combate à sonegação fiscal ou na reforma tributária que temos que fazer. Nossa proposta é saúde pública, gratuita e de qualidade para todos, e isso é perfeitamente possível. Vamos trabalhar para que a gestão da saúde seja democrática, com a comunidade participando efetivamente, seja através do Conselho Estadual de Saúde, seja através de outras formas de participação. Além disso, precisamos de mais servidores, que têm que ser melhor pagos.
Qual será a política de combate à criminalidade do seu governo?
A criminalidade no Paraná está se transformando numa tragédia social. As autoridades não conseguem mais esconder essa realidade. Em primeiro lugar, não se acaba com a violência só com polícia. O responsável pela violência é a sociedade, o sistema. A medida de fundo é dividir a riqueza. Mas a violência tem características e questões que têm que ser tratadas imediatamente. Temos que ter mais polícia e ela tem que ser melhor paga, ter melhores condições, o que implica também trabalhar menos. Ela tem que ser treinada para atender o cidadão, o ser humano. Hoje, a polícia é muito pensada em função da proteção do patrimônio. Quando acontece um assalto a banco, a polícia é extremamente eficiente. Quando matam 10 pobres num bairro, a investigação não chega ao fim nunca. Então, é uma nova concepção de polícia. Aí, entra uma série de políticas que normalmente não são abordadas, mas são muito importantes. Por exemplo: uma defensoria pública que funcione. E quando falo em equipar a polícia, não falo só em armas, viaturas. É investir em inteligência. A Polícia Federal já desmontou assalto a banco sem dar um tiro. Mas não se faz trabalho de inteligência com 4 mil policiais civis mal pagos e desestimulados.
O senhor tem uma meta para o aumento de efetivo policial?
Isso depende de um estudo. Não assumo o compromisso de dizer números. Mas, assumindo o governo, em dois, três meses, é possível fazer esse levantamento e tomar medidas. Em meio ano, dá para ter resultados efetivos. Algumas coisas serão imediatas, como licitações para compra de equipamentos.
Qual será sua política em educação?
Você precisa de salas de aula com menos alunos. Hoje, têm de 45 a 50. Precisaria ter no máximo 25, o que implicaria o dobro de salas de aula ou até o dobro de professores. Além disso, o professor precisa ser melhor preparado e ter condições de trabalho. Isso se resolve em grande parte dando mais hora-atividade para ele preparar as aulas. Os professores reivindicam 30%, e nós concordamos. Então, são medidas voltadas para dentro da escola. Mas também temos que analisar a escola colocada dentro da sociedade onde a gente vive, que é extremamente desigual. Temos que combater a desigualdade para ter uma escola melhor.
A Companhia de Habitação do Paraná (Cohapar) reconhece que faltam mais de 260 mil casas no Estado. Quais são suas prioridades na área de habitação?
Podemos fazer mais do que está sendo feito. Temos que trabalhar para zerar o deficit habitacional, pensar essa política habitacional para o interior, para quem mora na roça, que muitas vezes se força a ir para a cidade por falta de condições de moradia adequadas. Se o Estado do Paraná não tem condições de fazer isso sozinho, vamos usar o prestígio e a liderança política do governador para conseguir políticas federais para resolver esse problema, junto com os municípios, enfim.
Mais da metade dos municípios paranaenses não conta com rede de esgoto. Como resolver isso?
O Estado não resolve essas questões básicas porque os recursos públicos são usados para concentrar renda, para beneficiar grupos econômicos, o agronegócio, empreiteiras, as concessionárias. E não se pensa no uso de recursos públicos para resolver essas questões básicas. O Estado arrecada R$ 12 bilhões de ICMS. Sabemos que no Brasil, de cada R$ 2, R$ 1 é sonegado. Então, vamos fazer primeiro uma política de fiscalização dura para arrecadar esse imposto.
O seu plano de governo fala muito do tema ''ecossocialismo''. O que seria esse conceito?
Somos um partido socialista e defendemos a construção do socialismo como sistema de organização da economia e da sociedade, que salva inclusive do risco de extinção da vida humana por força das mudanças climáticas. Estamos convencidos de que só vamos resolver os nossos graves problemas sociais com a construção do socialismo. Que deve começar com políticas como uma reforma tributária que faça os ricos pagar imposto, taxe as grandes fortunas e as heranças. Com a reforma agrária, podemos resolver muitos problemas, dos sem-terra, dos filhos de camponeses, das economias asfixiadas no interior, e estimular pessoas que vivem nas periferias das grandes cidades a voltar para o interior. Nós podemos fazer reforma agrária aqui no Estado, porque o Paraná tem 1,4 milhão de hectares de terras devolutas e improdutivas, que podem ser utilizadas imediatamente para isso. A questão da reforma tributária é mais complexa, envolve legislação nacional, mas se não podemos construir o socialismo com o Governo do Estado, podemos evitar que o capitalismo se fortaleça e concentre mais riqueza ainda. Existe um processo de privatização das penitenciárias, das escolas, que perdem espaço e as privadas ganham. Então, queremos políticas que apontem para a construção de uma sociedade justa, humanitária e igualitária, que coloque no centro das suas preocupações a natureza. O nosso projeto de crescimento é diminuir a riqueza da pequena elite e distribuir para a grande maioria que não tem nada.
O PSol é um partido pequeno. Não tem nenhum deputado atualmente na Assembleia Legislativa. Como o senhor vai trabalhar a questão da governabilidade, principalmente na relação com o Legislativo?
Nós temos inúmeros exemplos de governos que governaram com minoria no Legislativo e se saíram muito bem, por exemplo, a Prefeitura de Porto Alegre, quando estava na mão do PT. Se o governador tem um projeto como o Leite das Crianças e os deputados forem contra, lá na frente eles vão pedir voto para a mesma população que seria beneficiada. Primeiro, (tem que haver) respeito aos poderes. Cada um faz o seu papel. Segundo, saber fazer política.
FICHA DO CANDIDATO
Nome para urna eletrônica: Luiz Felipe Bergmann
Partido/coligação: Partido Socialismo e Liberdade (PSol), sem coligação
Nome completo: Luiz Felipe Bergmann
Data de nascimento: 04/11/1961
Local de nascimento: Porto Lucena (RS), mas registrado em Campina das Missões
Estado civil: Casado
Filhos: Nathan Felipe, de nove anos
Formação: Formado em Direito e Economia, com pós-graduação em Direito do Trabalho
Ocupação: Servidor público federal no Ministério do Trabalho
Profissões que já exerceu: Bancário, analista de sistemas, técnico judiciário na Justiça do Trabalho
Cargos eletivos que já exerceu: Nenhum
Partidos a que pertenceu: PT e PSol
Limite declarado de gastos de campanha: R$ 100 mil
Valor total dos bens declarados à Justiça Eleitoral: R$ 190 mil


