Belinati é preso sob acusação de comandar os desvios em Londrina
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sexta-feira, 04 de maio de 2001
De Londrina 
Também foram presos ex-presidente da Sercomtel Rubens Pavan e ex-secretário Wilson Mandelli; outras quatro pessoas também tiveram prisão preventiva decretada, por formação de quadrilha, peculato, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro
O ex-prefeito de Londrina Antonio Belinati (sem partido) foi preso ontem, acusado de participar do esquema de desvio de R$ 1,7 milhão do Conselho de Gestão Financeira (Cogefi), criado para gerir os recursos obtidos com a venda de 45% das ações da Sercomtel. A prisão preventiva de Belinati e outros seis acusados foi decretada pelo juiz da 4ª Vara Criminal, Arquelau Araújo Ribas, que acatou denúncia feita há 60 dias pelo Ministério Público (MP). As investigações começaram há mais de dois anos.
Além de Belinati, também foram presos o ex-presidente da Sercomtel Rubens Pavan, detido em São Paulo, e o ex-secretário de Governo e Administração da gestão Belinati Wilson Mandelli. Os demais citados que tiveram a prisão decretada são o ex-secretário de Governo Gino Azzolini Neto, Cassimiro Zavierucha (o Carlos Júnior, apontado como tesoureiro de Belinati), e os empresários de Curitiba Arion Cruz Santos e Solano da Ros. Na denúncia, os promotores pediram a prisão de 21 dos 36 acusados de formação de quadrilha, peculato, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro.
Segundo a denúncia do MP, os recursos foram desviados através de licitações fraudulentas na Autarquia Municipal do Ambiente (AMA) e na extinta Companhia Municipal de Urbanização (Comurb, hoje CMTU). Para o promotor Cláudio Esteves, um dos responsáveis pelas investigações, os envolvidos nessa ação configuram uma quadrilha especializada no desvio de recursos públicos e suas ações enquadram-se na lei de crime organizado.
De acordo com o delegado operacional da 10ª Subdivisão Policial de Londrina (SDP), Jurandir Gonçalves André, a prisão de Belinati foi feita ontem por volta das 11 horas da manhã, no apartamento dele, na Rua Belo Horizonte, área central. Ele estava aguardando com o advogado no apartamento dele, relatou.
O advogado de Belinati, Antonio Carlos de Andrade Vianna, afirmou que o ex-prefeito nunca teve a intenção de fugir da ação da Justiça. Hoje (ontem) de manhã me chamou ao apartamento, deixamos a porta da sala aberta para que a polícia entrasse e o levasse conduzido ao distrito policial, disse o advogado. Questionado sobre como sabia da prisão, Vianna respondeu: Não há nada que aconteça no Fórum que eu não saiba, porque é a minha profissão.
Belinati permaneceu na 10ª SDP cerca de uma hora e quando saía da sala do delegado-chefe da 10ª SDP, Gilson Garret Algauer, não comentou a prisão. Eu vou dar uma declaração na saída (do prédio), garantiu, se mostrando bastante tranquilo.
No entanto, o ex-prefeito foi surpreendido por cerca de 50 pessoas que o aguardavam na porta da delegacia, gritando ladrão. O publicitário Waurides Brevilheri, também investigado pelo MP por possível participação no esquema de desvio de dinheiro da Prefeitura de Londrina, tentou agredir o ex-prefeito. Bastante alterado, Brevilheri foi afastado por policiais.
A confusão se estendeu até a viatura da polícia, estacionada na porta da 10ª SDP. Uma das irmãs de Belinati, que acompanhava a prisão e não quis se identificar, agrediu repórteres e membros do Movimento pela Moralização na Administração Pública, que estavam com camisetas com o slogan Cana Neles. Inicialmente havia a determinação que o ex-prefeito seria encaminhado ao 3º Distrito Policial (DP) na zona oeste. Segundo o delegado, devido à confusão, Belinati foi levado à carceragem do 2º DP.
Belinati e Mandelli estão presos juntos em uma cela comum. Segundo o delegado do 2º DP, José Arnaldo Peron Martins, eles estão separados dos demais presos e chegaram sem os telefones celulares. As 10 celas do distrito, que têm capacidade para 48 detentos, estão superlotadas, com 110 presos. Conforme Peron, o preso que ocupava o xadrez onde estão presos Belinati e Mandelli, foi colocado junto com os outros para dar lugar aos novos hóspedes.
Peron acredita que a presença de Belinati não deve alterar o comportamento dos detentos e nem causar distúrbio. Todos sabem que eles estão aqui, mas ainda não se manifestaram, comentou. Ele contou que Belinati e Mandelli conversaram pouco quando chegaram e demonstravam calma.
De acordo com o delegado, Belinati e Mandelli poderiam correr riscos se fossem colocados na mesma cela com os outros presos. Somente Mandelli, por ter curso superior, tem direito a prisão especial, mas no 2º Distrito não há cela para esse tipo de preso. Belinati não tem formação superior.
O irmão da mulher de Belinati, a vice-governadora Emília Belinati, esteve no distrito no meio da tarde. Sebastião Sales levou uma caixa de isopor com maçã, banana, sanduíches e dois refrigerantes. Belinati e Mandelli recusaram o almoço servido na carceragem. No cardápio havia macarrão, polenta, salsicha, arroz e feijão. Durante o jantar os presos iriam comer arroz, feijão, mandioca frita e carne de porco.
O advogado de Mandelli, Ronaldo Neves, visitou o ex-secretário e informou que está articulando um habeas-corpus junto ao Tribunal de Justiça para segunda-feira. A mesma providência deve ser tomada pelo advogado de Belinati. Porém, Viana acredita que o TJ irá analisar o recurso somente daqui a 10 ou 15 dias.
Belinati ganhou ontem o apoio de presidiárias do 2º Distrito, por meio de cartas. A Folha teve acesso a duas delas, entregues por um parente de Belinati. Os ex-prefeito pediu à reportagem que lesse mas devolvesse as cartas em seguida.
Presas que se de auto-denominam Meninas X 5 escreveram: Ao nosso grande prezado prefeito do coração. Enviamos por meio desta nossos mais profundos sentimentos de solidariedade neste momento difícil de sua vida. Admiramos muito o senhor e temos respeito por sua pessoa. O senhor faz parte da história de nossa cidade. Basta olhar do lado para enxergamos uma obra sua.
Na entrada do 2º Distrito há um cartaz com o seguinte aviso: Srs. plantonistas. Todo detento antes de ser recolhido no presídio deverá ser revistado. Inclusive os entregues pela escolta. O delegado Peron garantiu que Belinati não teve tratamento especial. Ele e o Mandelli passaram pela revista, afirmou.
O advogado do ex-secretário Azzolini Neto, Omar Baddauy, esteve ontem à tarde no 2º DP, mas negou que tenha ido tratar de algum assunto ligado a seu cliente. Vim ver outras coisas, afirmou. O advogado acrescentou que Azzolini Neto não o procurou ontem. Sou advogado dele nas ações em curso. Possivelmente eu é que vou defendê-lo agora mas ainda não examinei a decisão judicial. (Cristiane Oya, Maranúbia Barbosa e Cláudia Lopes)


