Base governista no Congresso pode chegar a 80%
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domingo, 25 de janeiro de 2004
Agência Estado 
Brasília - Com a reforma ministerial, a base do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Congresso pode chegar a 80% dos parlamentares. Essa é a meta do governo e, quando concretizada, a oposição na Câmara ficará com pouco mais de cem deputados. Nesse caso, o governo ficaria com uma fantástica margem de votos para a aprovação de qualquer tipo de reforma constitucional, pois contaria com quatro quintos dos votos perto de 411. Uma emenda constitucional necessita de três quintos (308 votos).
A meta é criticada até por parlamentares ligados ao governo. Seria, na opinião deles, o primeiro passo para a hegemonia de um partido ou coligação, como aconteceu com o PRI (Partido Revolucionário Institucional) do México, que ficou mais de 70 anos no poder. O PRI só caiu recentemente, com a eleição do presidente Vicente Fox.
De acordo com aliados do governo, a meta de ter na base 80% de toda a Câmara foi estabelecida pelo ministro da Casa Civil, José Dirceu, antes de passar a responsabilidade das negociações com o Congresso para Aldo Rebelo, o novo ministro da Coordenação Política de Lula. Para um governo com apenas um ano de mandato e popularidade alta, há possibilidade até de a meta ser ultrapassada. Hoje, os partidos de oposição PFL, PSDB, PDT e Prona somam 133 deputados. Descontados os que estão sem partido, a base aliada conta com 376 deputados, ou seja 73,2% dos 513.
''Não se iluda o governo. Parte da sociedade votou na oposição porque não concorda com a hegemonia total de um partido. Se o Congresso for cooptado, a sociedade vai perder suas esperanças nos seus representantes legais e fazer a sua manifestação de outra forma'', diz o deputado Roberto Brant (PFL-MG). ''Isso é um perigo.''
É justamente no PFL que o governo espera conquistar mais oito adesões nas próximas semanas. Elas não iriam para o PT, mas para o PTB, que passaria de 52 para 60 deputados. E, dos 13 parlamentares que ainda restam no PDT, entre 8 e 10 poderiam ir para o PSB, partido da base de Lula. Só com isso, a base iria para 394 deputados.
''Acho perigoso para a democracia a construção de uma base parlamentar tão grande. Nem o presidente Fernando Henrique Cardoso chegou a isso'', diz o cientista político David Fleischer, da Universidade de Brasília. ''Oposição é importante para o governo ter equilíbrio e autocrítica.''
Para o líder do PT na Câmara, Nelson Pellegrino (BA), a reclamação das oposições não procede. ''Governo popular, todo mundo quer apoiar. Assim é a política'', afirma. Diz ainda que não vê perigo para a democracia com uma base de 80% dos deputados. ''Durante muitos anos, nós, da oposição, não chegamos a 120 deputados. E fizemos um estrago terrível no governo. É só PFL e PSDB aprenderem a fazer oposição.''


