Líderes consideram que depois de duas semanas críticas, governo readquire a paz
Arquivo FolhaCAMALEÕESTucano José Roberto Arruda: na volta do recesso, parlamentares tiveram que adaptar discurso à crise econômicaDurou menos de duas semanas a crise política que parecia destinada a desestruturar definitivamente a base de apoio parlamentar do governo Fernando Henrique. O sinal de que o ambiente político estava mudando em Brasília foi a visita que o presidente do Congresso, senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) fez ao ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Aloysio Nunes Ferreira, na manhã de terça-feira, e se consolidou nas negociações entre os partidos da aliança governista, na quinta-feira, para definir o texto final do projeto de lei complementar da reforma administrativa, que define as carreiras típicas de Estado e permite a demissão de funcionários públicos por incompetência.
No primeiro caso, ACM legitimou, para o mundo político, o papel do ministro Aloysio Nunes como articulador político do Palácio do Planalto. Foi a primeira vez, desde a posse de Fernando Henrique no primeiro mandato, que Antonio Carlos atravessou a Praça dos Três Poderes para discutir política no Palácio do Planalto com alguém que não fosse o presidente. O fato de o ministro-chefe da Casa Civil, Pedro Parente, ter também participado do encontro, indicou para o mundo político que a principal liderança do PFL aceitou e recomenda a ambos como interlocutores válidos.
O segundo caso demonstrou a eficácia do novo modelo de articulação política na produção do acordo parlamentar que aprovou o projeto complementar da reforma administrativa sem concessões relevantes aos grupos de interesse do funcionalismo e seus aliados na oposição de esquerda. A aprovação da matéria por 413 votos a 22 indicou que a ‘‘crise política’’, se existia de fato, não iria paralisar o processo decisório da Câmara dos Deputados. ‘‘Tivemos, na verdade, um freio de arrumação’’, explicou o líder do Governo no Senado, José Roberto Arruda (PSDB-DF).
Segundo Arruda, os congressistas voltaram das férias de julho à procura de um discurso que os sintonizasse com as preocupações e anseios de suas bases eleitorais, atormentadas com a perspectiva de aumento do desemprego e, principalmente, com o medo da volta da inflação, algo que não acontecia desde o lançamento do Plano Real em junho de 1994. ‘‘A inflação já é visível nos supermercados e nos trasnportes’’, confirmou o o senador José Agripino (PFL-RN) ao final da reunião da Comissao Executiva Nacional do PFL, na quinta-feira. Segundo ele, o recado que os congressistas captaram nas ruas, durante o recesso, já foi transmitido ao Presidente da República: ‘‘O País precisa retomar o desenvolvimento para que haja investimentos novos e geração de empregos’’.
O reforço de políticas voltadas para a reativação da atividade econômica não deixou de ser, portanto, o ponto central do discurso dos políticos. A diferença é que depois de dez dias de críticas surgidas no PMDB, no PFL e no próprio PSDB, o partido de Fernando Henrique, a posição do ministro da Fazenda, Pedro Malan, deixou de ser questionada pelos aliados. De fato, os ataques desferidos contra o ministro responsável pela condução da política econômica, abertos na semana retrasada pelo discurso com que o senador Antônio Carlos apresentou uma proposta de políticas para combater a miséria no país, haviam evoluído para um quadro de enfraquecimento do ministro e do próprio Presidente da República.
No rastro do discurso do senador baiano, o ex-ministro e vice-presidente do PSDB, Luiz Carlos Mendonça de Barros, atacou a política econômica em uma palestra para empresários e cobrou ‘‘mais sensibilidade social’’ da equipe dirigida pelo ministro Pedro Malan. A sensação de que o quadro político se deteriorava rapidamente aumentou como a interpretação equivocada de declarações feitas na tarde de terça-feira pelo presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), que pediam mais ênfase nas políticas de desenvolvimento e ressalvava que isso poderia ser perfeitamente operado por Malan. Mas a versão que prosperou nos meios de comunicação, era de que além de ACM, também Temer questionava a continuidade de Malan no cargo.

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