Exatos três meses e um dia após a renúncia ao cargo, o ex-vereador Henrique Barros (sem partido) voltou ontem à Câmara Municipal e protagonizou cena rara: se na época de plenário era dos que mais circundavam não só a assessoria de imprensa legislativa como também os repórteres que cobrem o dia-a-dia da Casa, ao chegar e deixar o local se manteve em absoluto silêncio diante das perguntas que lhe foram dirigidas pelas equipes de reportagem. Ele foi ouvido pelos membros da Comissão Processante (CP) aberta contra o também ex-vereador Orlando Bonilha (PR).
Barros era considerado peça fundamental pela CP, que apura denúncia formulada em relatório da Comissão Ética contra Bonilha, de suposta quebra de decoro parlamentar. Bonilha, que renunciou ao mandato dia 20 de março, fora apontado por Barros como suposto centralizador e repassador de recursos obtidos de propina que seria arrecada de empresários em troca da aprovação ao agilização de projetos de lei. Então no PMDB, Barros citou o colega e também os vereadores Flávio Vedoato (PSC), Osvaldo Bergamin (PMDB) e Renato Araújo (PP) - afastados dos cargos pela Justiça - em depoimento ao Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) no dia 10 de janeiro, quando foi preso de posse R$ 9,9 mil supostamente ilícitos.
Ao juiz substituto da 3 Vara Criminal de Londrina, Marcos José Vieira, contudo, contradisse a versão dada à Promotoria e se disse coagido a ter citado nomes. Dias depois, o juiz recebeu - e liberou para conhecimento público - imagens anexadas aos autos a pedido do Ministério Público (MP): nelas, surge um Barros aparentamente nervoso somente quando da abordagem dos policiais que o abordaram no dia da prisão. Na sede do MP, citou nomes de vereadores e chegou a se colocar como ''parceiro'' dos promotores para elucidação dos fatos.
O presidente da CP, vereador Tercílio Turini (PPS), afirmou após os pouco mais de 40 minutos de depoimento fechado que Barros foi ''muito evasivo na maioria dos questionamentos'', mas que o ex-parlamentar teria sustentado a versão dada em juízo. ''Ele negou qualquer esquema e inocentou o Bonilha, dizendo que se sentiu pressionado'', comentou Turini. ''Já percebemos que essa é uma linha adotada pela defesa dele, mas a CP vai continuar os trabalhos na próxima semana porque esse depoimento de nada ajudou - foi até bem frustante'', completou ele.
Os depoimentos aos quais o vereador se refere devem ser os de André de Biagi, irmão do empresário Maurício de Biagi - que depôs ter sido extorquido para receber um terreno - e com quem Barros teria se encontrado no Gaeco, no dia da prisão, e Edson da Silva Lopes, policial militar que teria ouvido de Barros, no trajeto até o MP, naquele dia, que os R$ 9,9 mil provinham de propina e iriam para Bonilha.
O advogado de Bonilha, Ronaldo Neves, insistiu na suposta clandestinidade da gravação do MP - o que o Gaeco já negou e considerou ofensivo - e concluiu que, sob o ponto de vista da defesa do cliente, o depoimento de Barros não mudou ''absolutamente nada do que vinha sendo dito desde o início''. ''Apontam o Bonilha como chefe de quadrilha. Conheço samba de uma nota só, agora quadrilha de um só, até hoje, desconheço. O Bonilha não é o Barrabás da Câmara. A cidade 'está comendo barriga''', definiu.

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