Barros defende Ministério da Produção
Arquivo FolhaBarros: Desenvolvimento é objetivo de qualquer política decenteBarros defende Ministério da Produção
Renata Freitas
Agência Estado
Comandante de um exército de Brancaleone que não chegou ao campo de batalha, o ex-ministro das Comunicações Luiz Carlos Mendonça de Barros revelou em entrevista exclusiva à Agência Estado os planos originais do novo Ministério da Produção. E alertou: o futuro ministro da Produção precisa ter a confiança da equipe do Ministério da Fazenda. Ele mesmo havia submetido o projeto à aprovação do ministro Pedro Malan, de quem se aproximou durante a crise internacional.
Embora o presidente Fernando Henrique Cardoso persista na idéia de criar a nova Pasta, a resistência a esse projeto é decorrente de uma mudança muito importante na política econômica do governo, segundo Mendonça de Barros. O desenvolvimento constante é o objetivo central de qualquer política econômica decente, declarou o ex-ministro, ressalvando que estabilidade e desenvolvimento não são contraditórios.
Em meio a baforadas do seu cachimbo, ele afirmou que a proposta de colocar o Banco do Brasil sob a tutela do novo Ministério da Produção levou a uma caça às bruxas que resultou na sua demissão. Hoje estou convencido de que isso foi a causa de tudo, afirmou.
AGÊNCIA ESTADO - Por que existe tanta resistência à criação do Ministério da Produção?
Luiz Carlos Mendonça de Barros - A primeira grande questão com relação ao Ministério da Produção é que ele representa uma mudança muito importante na política econômica do governo. Muito importante. Ele não é uma negação da política econômica dos primeiros quatro anos - isso ninguém questiona. Mas assim parece, porque a estabilização em si não é a essência de uma política econômica. O André (Lara Resende, ex-presidente do BNDES) coloca isso muito bem quando fala que é preciso se pensar numa macroeconomia do desenvolvimento e não numa macroeconomia da estabilização, que foi a agenda do primeiro governo. Evidentemente que nessa teoria o desenvolvimento é sustentado, não um desenvolvimento que se chama de vôo da galinha, que sai e cai. Um desenvolvimento constante é o objetivo central de qualquer política econômica decente. Os Estados Unidos, por exemplo, estão num ciclo de dez anos de crescimento porque efetivamente conseguiram reunir as condições essenciais para que esse crescimento se dê ordenamente ao longo de um período muito longo. Essa é a questão. Portanto, nessa macroeconomia do desenvolvimento, a estabilidade é um pressuposto. E todos nós sabemos que a estabilidade ainda não está consolidada no Brasil, tem ainda uma série de problemas. Evidente que a estabilidade de preços é hoje uma realidade, o Brasil venceu a famosa indexação. Choques sazonais não têm impacto sobre o índice geral de preços. Mas em função dessas distorções que existem na economia, o custo são os juros muito altos, o crescimento muito baixo e o desemprego. Foi da constatação de que não seria possível manter isso pelos próximos quatro anos que teve início esse questionamento do que precisaria ser a política econômica do segundo mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso. Isso é o que está por trás do chamado Ministério da Produção.
AE - Essa mudança na orientação da política econômica do governo para o segundo mandato é que tem criado tamanha resistência?
Barros - O que existe são duas visões conceituais diferentes. Existe a ala mais liberal do governo, que é representada pelos economistas da PUC do Rio que acreditam que a única função do Estado seja exatamente criar as condições macroeconômicas do desenvolvimento, isto é, estabilidade fiscal basicamente. E existe um outro grupo que parte de uma constatação de que essa posição mais liberal vale numa economia já estabilizada como a norte-americana, a européia, mas que o Brasil é muito desigual. Temos setores da economia que são modernos, já estão devidamente estruturados e que, portanto, desde que haja condições macroeconômicas adequadas, se desenvolvem. Mas o Brasil é muito grande. O Brasil tem uma desigualdade regional, de atividade econômica, de renda. Adotando essa postura mais liberal, talvez em dez, quinze ou vinte anos se chegue a esse desenvolvimento sustentado. Mas pode existir um shorcut (atalho) para isso, que é exatamente um conjunto de ações articuladas do governo para fazer com que esses setores desorganizados se organizem mais rapidamente.
AE - Esse Ministério, da forma que o senhor, o seu irmão José Roberto e André Lara Resende conceberam, seria mesmo da Produção ou da Proteção?
Barros - Se tudo que pensamos tivesse sido implementado acho até que haveria um grande choque, uma grande desilusão exatamente nesses segmentos que pensam que uma posição alternativa à posição mais liberal seria a volta ao passado. Todos nós demos provas suficientes de que não é essa a visão. O trabalho que o Beto (José Roberto Mendonça de Barros) estava fazendo na Camex (Câmara de Comércio Exterior) é um trabalho de articulação do governo no sentido de acelerar o processo de internalização nas empresas de que o comércio exterior hoje é uma coisa fundamental. Outro problema é o sistema financeiro, talvez uma das maiores distorções que existem na estrutura da economia brasileira hoje. O Brasil tem um sistema financeiro que passou por uma crise - Graças a Deus antes da crise externa - mas a reestruturação está ainda começando. É um sistema financeiro ineficiente e os nossos banqueiros têm uma mentalidade ainda de curto prazo, e têm razão, em função da história. Mas isso provocava outra divergência entre os dois grupos do governo. Nós achamos que os bancos públicos têm uma função de complementar nos próximos quatro anos exatamente essas deficiências no sistema privado - aí estão o BNDES, o Banco do Brasil, a Caixa Econômica, o Banco da Amazônia. Por isso é que surgiu a idéia de que os bancos públicos estivessem articulados debaixo do Ministério da Produção. E essa é uma posição contrária à que existe hoje.





