A ocupação irregular de áreas públicas em Sapopema (130 km ao sul de Londrina) está gerando insatisfação entre a população e acusações de uso político em ano eleitoral. Após receber ligações de moradores que não quiseram se identificar, a FOLHA foi ao município na última quinta-feira e constatou que os canteiros das avenidas principais já abrigam dois bares, uma oficina mecânica e uma residência em alvenaria.
  No canteiro da Avenida Manoel Ribas, praticamente em frente à prefeitura, foi erguido um bar que conta até com banheiro e fossa séptica. Vizinho ao posto local dos Correios há outro bar, que está passando por obras de ampliação para dar lugar a uma pequena churrascaria. Os dois bares comercializam bebidas alcoólicas e contam com mesas de sinuca. Na semana passada, três vereadores de oposição enviaram ofício à prefeitura pedindo providências.
  O prefeito de Sapopema, Roberto Jorge Abraão (PSL), reconheceu que os estabelecimentos não possuem autorização, mas alegou que se trata de problema herdado de administrações anteriores. Além disso, ele alegou que os estabelecimentos geram emprego e renda para a cidade e que não vai tomar providências para a retirada.
  ‘‘Tirando aquele de lá (em frente aos Correios) que está debaixo de linha de alta tensão, os outros não têm problema. Isso foi construído há 20 anos e se o cara quer trabalhar, que trabalhe. Eu tenho uma política de boa vizinhança: se eu vou lá, tiro a pessoa e daqui a pouco não sou mais prefeito... Vou ficar com um inimigo?’’, questionou. ‘‘Isso é simplesmente coisa política. A oposição quer me chamar para dançar a música deles, mas não vou não.’’
  Referindo-se ao estabelecimento que está sob a fiação da Copel, Abraão alegou que já avisou para suspender a obra de ampliação. ‘‘Lá, se continuar eu embargo.’’
  O proprietário do estabelecimento, porém, tem uma versão bem diferente. ‘‘Ele (o prefeito) disse isso, é? Acho estranho, foi ele mesmo que me autorizou e a prefeitura me ajudou com areia e pedra’’, afirmou Jefferson Mitsuaki Ito – que ‘‘comprou’’ o ponto há cinco anos. De acordo com Ito, a ‘‘mudança’’ de posição do prefeito deve ter motivação política. ‘‘Talvez ele disse isso porque vou me candidatar a vereador. Todo mundo aqui me conhece’’, relatou – cheio de prosa. O comerciante contou também que o delegado e o presidente da Câmara são assíduos clientes do bar – e nesse caso é confirmado pelo próprio prefeito.
  Questionado sobre o partido ao qual pertence, o dono do bar titubeou. ‘‘É o PPL...PPF...’’, confundiu-se. ‘‘É o PPS?’’, perguntou o repórter.‘‘É, isso mesmo, o PPS. É o partido do ex-prefeito’’, afirmou. ‘‘É que faz pouco tempo que me filiei.’’
  O proprietário do bar que fica em frente à prefeitura, Demétrio Batista, confirmou ter feito a obra em administrações anteriores, mas disse que também conta com apoio do atual prefeito. ‘‘Eu tenho autorização dele’’, disse. Questionado se é uma autorização por escrito, responde que não. ‘‘De boca’’, informou.
  Batista assegura que está no ‘‘ponto’’ desde 96 e conta que não paga IPTU. ‘‘Só R$ 150 por ano, pelo alvará.’’ Quando o repórter pede para o ver o documento, ele informa que está na sua casa e que não vai mais dar detalhes. ‘‘Preciso ver o que o prefeito disse, não quero atrapalhar ele.’’
  A reportagem conversou também com alguns dos 6.800 habitantes habitantes da cidade – porém nenhum quis se identificar. A maioria critica a ocupação dos espaços públicos, mas teme retaliações. ‘‘A coisa tinha que ser mais séria em Sapopema’’, resume um representante do comércio formal.

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