‘‘Quando falo que vou criar a Farmácia do Povo os poderosos tremem na perna. Eles dizem que isso é demagogia, mas até o presidente dos Estados Unidos (Bill Clinton) está lançando um projeto igual porque ninguém toma remédio como água, mas porque precisa dele.’’ E, reforça, num tom ameaçador: ‘‘Os que moram nos palácios e nas coberturas sabem muito bem que a hora deles está chegando. Não vamos pensar duas vezes para executar os grandes devedores do IPTU e do ISS. Lamentavelmente hoje só são ameaçados pela prefeitura os moradores dos bairros e da periferia.’’ Esses são alguns trechos do discurso feito anteontem pelo candidato do PDT à Prefeitura de Londrina, Barbosa Neto.
Ele realizou comício à noite nos Cinco Conjuntos, bem no coração da Avenida Saul Elkind, zona Norte de Londrina. Para o candidato, não se pode confundir popular com populista. Mas é impossível assistir a um comício de Barbosa sem se lembrar dos apelos que marcaram a trajetória política do prefeito cassado Antonio Belinati (PFL).
Barbosa chega rompendo pelo meio do povo. As meninas, num choque de histeria, agarram o candidato. Ele alcança o palco todo amarrotado, faz um discurso de pouco mais de 30 minutos e depois se joga no meio do público para delírio das fãs.
O público, de aproximadamente 3 mil pessoas, formado em grande parte por jovens, não é do tipo que está ali para ouvir discursos. Não há nenhuma extravagância, neon, piroctenia e outros artifícios para atrair o público. Das 20 horas até as 22h10, quando Barbosa finalmente aparece, a dupla Júlio Cesar e Rafael, acompanhada pela banda BN, seguram a barra. Após assumir o microfone, ele começa a conduzir seu eleitorado. Pede silêncio e diz que precisa falar algumas ‘‘coisas sérias’’.
Além do discurso sobre a Farmácia do Povo e da cobrança dos grandes devedores, não esconde duas mágoas: ter sido barrado como candidato a deputado estadual, em 98, e ter perdido o espaço de seu programa de TV. Barbosa classifica esses dois acontecimentos como ‘‘mais uma trama dos donos do poder’’. Em seguida, mira sua artilharia contra dois adversários: Luiz Carlos Hauly (PSDB) e Farage Kouri (PFL). ‘‘Esse deputado (Hauly) aumentou o IPTU de Cambé em 600% (o mesmo argumento de Cheida para Hauly durante debate na TV) e há um outro candidato (Farage) que promete fazer da prefeitura uma empresa’’.
Em seguida, lembra sua história de vida. ‘‘Sou filho de uma cabeleireira, uma mãe negra com muito orgulho, e de um servidor que ganha R$ 300,00. Quando eu tinha 3 anos, meu pai nos abandonou. Ficamos eu, minha mãe e minha irmã. Minha mãe trabalhou duro para nos criar. Fui garçom, chapeiro, morei em tudo o que é pensão de Londrina. Com muito sacrifício, consegui me formar em 1º lugar em jornalismo pela Universidade de Londrina.’’
Barbosa afirma ‘‘nunca ter pensado em concorrer a nada em Londrina’’. Mas hoje sabe que, com sua popularidade, é peça importante no quebra-cabeça da política de Londrina. E busca convencer o eleitor declarando: ‘‘Estou no ápice da minha forma física e mental para administrar Londrina’’.
Como o projeto do Pronto Atendimento Infantil (PAI), de Belinati, Barbosa também promete construir uma obra social que será ‘‘um marco em Londrina’’. ‘‘Não é promessa. Dinheiro tem, basta não roubar. O Centro de Educação Complementar Integrada (CECI) será a nossa maior obra. As crianças vão chegar às sete da manhã, terão quatro refeicões e ainda aula de música, ginástica e todo tipo de esporte’’.
Apesar da falta de experiência política, Barbosa é íntimo do microfone e, como Belinati, também se coloca como o defensor dos fracos. Levanta o pé com a bota surrada para declarar: ‘‘É com essa bota velha no pé que vou governar. Não com sapato de cromo alemão como fazem os poderosos’’. Com apelo desse tipo, acredita se identificar com os milhares de sofridos que moram na periferia de Londrina.

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