Banestado vai requerer inquérito da PF
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quinta-feira, 12 de novembro de 1998
Patrícia Zanin 
A assessoria do governador Jaime Lerner (PFL) disse ontem que a Casa Militar vai intensificar a varredura no gabinete do governador e nas secretarias para evitar episódios como o ocorrido na segunda-feira, quando o presidente do Banestado, Manoel Campinha Garcia Cid, o Neco Garcia, disse ter encontrado um rádio transmissor sob a mesa da sala da diretoria na sede do Banco, no bairro Santa Cândida, em Curitiba. A informação sobre a existência do equipamento foi divulgada ontem com exclusividade pela Folha.
Segundo Neco Garcia, os diretores estavam desconfiados de que havia algo errado porque os assuntos discutidos durante as reuniões, muitos deles sigilosos, estavam vazando com facilidade.
Ontem, o Banestado divulgou nota de esclarecimento em que afirma que seu departamento jurídico está preparando documentação para requerer, junto a Polícia Federal, a abertura de inquérito para apurar as responsabilidades sobre o fato.
Segundo a nota, uma empresa especializada em segurança industrial detectou a existência do aparelho de escuta e teria constatado que ele alcança um raio aproximado de 100 metros e estava sintonizado em uma frequência - não revelada - a uma distância restrita ao Centro Administrativo, no bairro Santa Cândida. A presidência do Banestado informou ainda no final do processo será possível concluir se a atitude teve o objetivo de obter informações financeiras privilegiadas ou praticar atos políticos para difamação.
O aparelho encontrado na sala da diretoria do Banestado, segundo a Folha apurou, é preto e pouco maior que uma caixa de fósforos.
O delegado-regional de Polícia Federal em Curitiba, Luiz Melzer, disse ontem à reportagem que só depois de receber o pedido de abertura de inquérito poderá avaliar se a competência para a investigação é da PF. Se for um crime federal deveremos apurar, adiantou. Ele disse que se for caracterizada violação do sigilo bancário e traduzir-se em prejuízo, a Polícia deverá investigar.
Neco Garcia havia afirmado na entrevista à Folha que já havia remetido o aparelho para perícia no Instituto de Criminalística do Estado, mas até o final da tarde de ontem, o Instituto ainda não tinha recebido o pedido. Caso o equipamento seja encaminhado ao órgão, será periciado no setor de engenharia. O chefe do setor, Marcos Gabriel Pereira Bueno, disse ser raríssimo esse tipo de caso com aparelho de escuta. Tivemos o último caso há uns três, quatro anos, afirmou.
O secretário de Segurança Pública do Estado, Rubens Tanure, disse ontem à Folha que não havia sido comunicado oficialmente sobre o episódio. Ouvi falar, mas o Neco Garcia não entrou em contato comigo, afirmou. Ele disse que o correto seria que a presidência do Banestado comunicasse a Secretaria. Qualquer ilícito, qualquer crime tem que ser comunicado à Secretaria para apuração e investigação. Ainda mais escuta ilegal, que é muito grave, afirmou.
O senador Roberto Requião (PMDB) que está divulgando denúncias contra o Banestado há várias semanas, no Senado, disse que o presidente do Banco deveria procurar rádio transmissor na casa dele, no chapéu dele e no bule de café do gabinete. O Neco, quando acordar, deve também procurar na orelha para ver se acha um micro-rádio. Isso parece comédia do Cantinflas (o mexicano Mário Moreno, um dos maiores humoristas do mundo), ironizou.
Para o senador, o episódio é ridículo. Eles (os diretores do Banestado) são bobalhões e alguém sabe tudo. Requião disse que divulga as atas do Banco porque está cumprindo seu dever de senador. Estou cobrando para que tudo não caia no esquecimento, afirmou. As atas com as reuniões da diretoria do Banestado foram colocadas no primeiro semestre na página do senador na Internet e retiradas por determinação do Supremo Tribunal Federal, que, a pedido da direção do Banestado, alegou sigilo bancário. Requião conseguiu publicar as atas no Diário Oficial do Senado. Ele pediu ao Tribunal de Contas que investigue a privatização do Banco.


