Paulo San Martin
Especial para a Folha
Um inquérito arquivado na Corregedoria de Polícia de São Paulo desde 1991 envolve o legista Fortunato Badan Palhares – convocado para depor amanhã na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico –, numa obscura investigação de tráfico internacional de órgãos. Este inquérito teria sido arquivado, por ordem do então delegado Geral de Polícia de São Paulo, Amândio Malheiro Lopes, antes que as investigações estivessem concluídas, para não comprometer Badan e outro médico envolvido, Rubens Brasil Maluf, que dirigia na época o Instituto de Medicina Legal (IML) de São Paulo.
A denúncia foi feita ontem pelo também legista Nelson Massini, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, ex-professor e ex-chefe de Badan no IML da Unicamp. De acordo com Massini, os indícios foram confirmados durante as investigações. Massini, que dirigia o IML da Unicamp, acompanhou o inquérito diz que ele foi arquivado sem explicações.
As investigações sobre o contrabando de órgãos haviam começado em São Paulo, em 88, depois de uma denúncia feita pelo então deputado Roberto Gouveia (PT-SP). Com base em depoimentos de diversos funcionários, ele sustentava que Maluf mantinha um freezer com hipófises retiradas de cadáveres dentro do instituto. De acordo com Gouveia, o médico havia comercializado só naquele ano 30 mil hipófises com o laboratório norte americano Sunrisa Industries, a US$ 5,00 cada uma. Naquele ano, um dos executivos do laboratório, Clemente Herem, havia realizado 21 visitas ao Brasil, sempre com visto de turista. Os órgãos são comercializados no mercado negro internacional como matéria prima para fabricação de hormônio do crescimento.
A Polícia encontrou ligações estreitas entre Maluf e o IML de Campinas, onde Badan Palhares era diretor de necrópsia. Funcionários do Cemitério dos Amarais, um dos mais importantes da cidade, chegaram a afirmar que havia um freezer cheio de hipófises dentro do cemitério e que teria sido tirado de lá assim que a polícia começou as investigações. A polícia suspeitava ainda que os órgãos eram enviados aos laboratórios do exterior a partir do aeroporto internacional de Viracopos, que fica em Campinas.
As investigações sofreram uma mudança brusca, segundo Massini, quando a polícia encontrou um frasco com hipófises humanas dentro do IML de Campinas. As hipófises estavam sob responsabilidade de Badan Palhares e endereçadas a Maluf. Badan foi chamado a depor e imediatamente o próprio Maluf veio em seu socorro. Disse que as hipófises haviam sido retiradas para pesquisa e não para contrabando. ‘‘Órgãos humanos não podem ser retirados nem para pesquisa. De qualquer forma, a partir do envolvimento de Badan, muito envolvido com o delegado Geral de polícia, o inquérito foi rapidamente arquivado e o caso abafado’’, denuncia. O legista depõe amanhã, em Brasília, acusado de forjar laudos para pessoas e policiais envolvidos com o crime organizado no país.Legista de Campinas, acusado pela CPI de forjar laudos, foi citado em inquérito que investigou tráfico de órgãos humanos
Agência EstadoENVOLVIMENTOLegista Badan Palhares, convocado a depor amanhã à CPI: explicações sobre laudos que serviram ao crime organizado

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