Autocrítica já!

Há muito a Lava Jato carece de uma autocrítica. Ainda que sob ataques de criminalistas e advogados liberais, soube manter-se num posto ofensivo e visto como salvador pela maioria da população que aceitava seus exageros fundamentalistas pela causa maior. Tomou a boa decisão de desistir de criar a fundação, mas só depois de tomar consciência pela reação do STF e da OAB do tamanho da enrascada em que se metera e culminada ainda com a demanda da hierarca mor do Ministério Público.

Percebe-se algo mais do que autossuficiência, do que soberba nesse desfrute do poder, desvio inadmissível nos que encampam cruzadas contra a corrupção e a impunidade. Cometeu alguns desvios em sua rota e corrigidos seus rumos na instância superior, mas esse derradeiro - pelas reações que provocou - exige um processo de autocrítica sobre toda obra e de saída uma postura mais equilibrada condicionada ao universo da legalidade sem abrir mão da pegada que fez uma radiografia, mais do que isso o início de uma psicanálise da classe política. E isso antes que novas arremetidas de arrogância degradem os seus feitos e levem ao sonho dos acuados - a anistia do Caixa 2, enunciada na concessão mais recente de Sergio Moro como ministro da Justiça. Tão urgente como a do PT, a autocrítica é necessária.

Chegaremos lá?

A prisão dos suspeitos do assassinato da vereadora Marielle Franco e do seu motorista Anderson Gomes, depois de um ano da ocorrência, deixa clara, apesar da intervenção federal na Segurança do Rio de Janeiro, a blindagem que o próprio governo estadual promoveu em ação unívoca ao poder paralelo das milícias. Uma frase cortante do ex-ministro da Justiça de Michel Temer, Torquato Jardim, à época incontestado, afirmava a inviabilidade do trâmite da polícia judiciária numa estrutura em que chefias do primeiro ao último escalão, tanto da civil como da militar, estariam acopladas ao crime organizado. Ora isso é a anomia em estado mais do que absoluto e o Pezão, que era o chefe de plantão, nem se mexeu. E sabia porque.

A questão agora é chegar nos mandantes, como sempre uma estrutura, viva mas ultra-secreta com o poder de uma Ku Klux Klan, e se a indicação dos suspeitos levou tanto tempo (e pode ainda ser contestada) dá para imaginar o tamanho do pasto a percorrer. A vida nababesca de gente aparentemente de classe média pobre é um indicador do universo que temos a imposição de analisar e, se possível, compreender e combater.

Intenções

Até agora, a bem da verdade, só temos intenções dos governos federal e estadual. Nenhum indicador do IBGE, seja a Pnad contínua ou qualquer outro, revelou algum avanço, apesar de a esperança, semeada pelas vitórias eleitorais, manter-se acesa. Por sinal que o ambiente é mais para morbidez e tragédia como o massacre de estudantes por dois adolescentes em Suzano que sobreveio à mortandade das chuvas em São Paulo e à hecatombe das barragens da Vale. Tudo isso amainado pelo Carnaval, após o qual o ano começou e se viu muito pouco daquilo que se pode esperar dos governos. Aí ambos dependem da deflagração das medidas na área econômica, a única que detém sinergia para mudar o cenário.

A ida de Ratinho Júnior ao encontro de Bolsonaro com o presidente paraguaio é um sinal de boa articulação porque, além das duas pontes que a Itaipu financiará, há aquele projeto ambicioso e de alta significação estratégica dos portos bioceânicos que pode constituir-se na maior causa logística do Paraná.

Pequena alta

Boa parte do público não se conforma com os indicadores inflacionários e a gasolina, que se trata de bem administrado, já ultrapassou os R$ 4, para confirmar a desconfiança como se já não bastassem as contas de luz e de água. Pois segundo o mais recente boletim do IBGE nova alta foi captada em alimentos e bebidas. Dos itens analisados apenas as áreas de transportes, mesmo com a alta dos insumos, e vestuários indicaram recuo nos preços. Para quem se encontra desempregado ou sub-empregado a inflação oficial não convence.

Abalo

Tudo que mexe com a universidade envolve toda comunidade: Curitiba foi abalada com a trama de funcionários nos esquemas de cursos de pós graduação em anos passados e agora a polícia detecta em Londrina desvio de R$ 1,1 milhão em suposta fraude no Hospital Universitário por meio de contratos terceirizados. Mandados de busca e apreensão e sequestro de bens marcaram os lances da Operação Falso Espelho. Como dizia o Clube da Lanterna (de Carlos Lacerda) e da UDN "o preço da liberdade é a eterna vigilância".

Folclore

O repórter Miló Fogiatto tinha o hábito nos banquetes (e que eram muitos com tanto congresso em Curitiba de 1951 até 1953, ano do Centenário da província) de pegar peras e maçãs que estavam em oferta nas mesas. Num congresso de cardiologistas dona Flora Camargo Munhoz da Rocha, a primeira dama, o convocou para fotos num salão do Graciosa Country Club: o Miló perfilou-se num lugar alto, meteu a mão no bolso e não foi com uma lâmpada que tentou o contacto para o flash, mas sim uma reluzente pera. Rezei para que a fruta acendesse, pois o repórter era puro demais para passar pelo constrangimento. Com rapidez achou a lâmpada e guardou a pera pra depois.

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