A fala de Heron Arzua, secretário da Fazenda, na Assembléia Legislativa não é necessariamente um fator inibidor contra a encampação do pedágio, mas no mínimo obriga a classe política, habituada ao jogo solerte das promessas, a ser mais cautelosa com o comprometimento de recursos públicos. Se na verdade o cenário é o descrito não há como imaginar a vinda dos guerreiros chineses, o tesouro arqueológico que empolgou São Paulo ao Museu Oscar Niemeyer. Aqui um parêntese: não existe uma lei que proíbe dar nome de vivos a obras públicas?

Serve também o silvo da panela de pressão para mostrar que inexiste dinheiro para aumentar servidores públicos, posto que os professores estejam agora com um movimento reivindicatório no disparo. Ruim com ganhos arrochados, pior com pagamentos atrasados. Da mesma forma todos os que esperavam um ciclo de bons negócios com um governo empreendedor podem tirar o cavalo da chuva. Lá pela metade do segundo ano de governo, talvez. Tudo passa a depender da reativação da economia. Tanto que a causa da queda da arrecadação do ICMS em maio, e que se repete provavelmente neste mês, é justamente a quadra recessiva, embora no Paraná, graças ao agronegócio, o volume de vendas tenha aumentado 5,34% em abril.

Ontem vimos uma comprovação das afirmações de Arzua quando servidores públicos fizeram manifestação hostil ao governo por não estarem recebendo, imaginem só, o vale-transporte, que também atrasou no mês anterior. Por aí se vê a dificuldade de fazer o processo administrativo deslanchar, enquanto o lado puramente político é de agito interminável. O quadro paranaense lembra aquelas montagens antigas do cinema, que precederam a computação gráfica, em que o ator ficava imobilizado no cenário enquanto uma projeção na parede dava idéia extrema de movimento. O auê político e psicossocial é que tenta conferir uma idéia cinemática, mesmo que o agente esteja numa postura catatônica.

A QUEDA A despeito de ainda manter elevada taxa de credibilidade é inevitável a entrada de Lula em tobogã nas primeiras escaramuças das reformas, mormente a da Previdência. De repente aquilo que mantém a aura, suas frequentes aparições na televisão, muitas vezes para ''abobrinhas'' (se é que o tal ''Fome Zero'' não se inclui nessa classificação), especialmente depois daquelas imagens do passado do próprio presidente atual combatendo seu antecessor em cima das mesmas matérias ora em debate, entra em decomposição e daí à queda livre é um passo menor do que o do astronauta Armstrong no território lunar.

O IPEA mostrou que o radicalismo do projeto previdenciário, cumprido à risca, proporcionaria uma redução de apenas 13% no déficit, o que em matéria de custo-benefício chega a ser chocante pelos ônus políticos da medida que deixam Lula numa saia justa. É verdade que a margem de manobra do governo é estrita, como se dava com FHC, diante da prensa e do ''fungar na nuca'' do FMI. Se tudo for assim contabilizado já dará para sentir, nas eleições do ano que vem, que a onda vermelha, que empolgou o país, corre o risco de sair de moda.

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