Uma sequência de ausências de candidatos tem esvaziado debates eleitorais na campanha de 2026. Em diferentes disputas, nomes que aparecem nas primeiras posições das pesquisas recusaram convites ou desistiram de confrontos com os adversários, levando organizadores a reformular ou até cancelar encontros previstos.

No Paraná, isso já aconteceu mais de uma vez. Sergio Moro (PL) desistiu, no dia do encontro, de participar do debate da Band, em agosto. Dias depois, o candidato do PL e Sandro Alex (PSD) também desistiram de um debate promovido pela TMC Paraná em parceria com a Universidade Positivo, que acabou se tornando uma sabatina com Requião Filho (PDT).

O episódio mais recente envolve Londrina: o debate que seria promovido neste sábado (12) pelo Grupo Folha de Londrina, Paiquerê 91,7 e OAB Londrina foi transformado em uma sabatina com Sandro Alex após as desistências de Moro e Requião Filho. O debate havia sido pensado como uma oportunidade para que o Norte do Paraná apresentasse aos candidatos questões de interesse da região, como a construção dos contornos Norte e Leste e a falta de representantes da região no primeiro escalão do governo estadual.

Na disputa presidencial, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), os dois primeiros colocados nas pesquisas, ficaram fora do primeiro debate promovido pela Band, em 23 de agosto. Romeu Zema (Novo) também não compareceu. Outro encontro, previsto para 14 de setembro e organizado pelo pool de veículos O Momento da Decisão, foi cancelado diante da falta de confirmação da presença de Lula e Flávio.

RISCO DE PERDER VOTOS

Para Ronaldo Gaspar, professor do Departamento de Ciências Sociais da UEL (Universidade Estadual de Londrina), uma das explicações está no cálculo eleitoral das campanhas. Quando os primeiros colocados estão consolidados, afirma, participar de um debate pode representar mais risco de perder votos do que oportunidade de conquistá-los. A ausência do líder também reduz o interesse de quem ocupa a segunda posição, que poderia acabar concentrando os ataques dos candidatos menores.

“No caso da eleição presidencial, isso é ainda mais evidente. Se Lula desiste, Flávio Bolsonaro não tem motivo para participar, pois os outros candidatos estão numa franja eleitoral muito próxima. Se ele desiste, Lula não tem motivo para ir e ser atacado por todos os outros candidatos”, afirma.

Segundo Gaspar, muitos candidatos também não querem debater programas de governo, enquanto uma “onda farsesca” do discurso anticorrupção acaba dominando a propaganda e o debate eleitoral.

“Com isso, o eleitor corre o risco de sofrer um estelionato, votando em candidatos que atentam contra os interesses de quem os elegeu. No mais, a curta campanha desestimula a participação presencial em muitos lugares, daí os candidatos priorizarem os eventos em locais que lhes são mais próximos, com público mais cativo e/ou favorável”, acrescenta.

Para Elve Cenci, professor do Departamento de Filosofia da UEL, com atuação em ética e filosofia política, as campanhas mudaram nos últimos pleitos e o formato tradicional de debate parece ter chegado ao limite.

“Nos últimos anos, os candidatos só concordavam em participar de debates com temas previamente definidos, ou seja, assuntos que lhes permitiam um intenso preparo prévio. Para os eleitores, restavam debates aborrecidos, genéricos e pouco elucidativos”, afirma o professor, que também destaca o impacto das redes sociais nas campanhas.

“Nas redes sociais, é possível fazer campanha 24 horas por dia, criando versões do que o candidato quer que seja divulgado sobre si. Ao mesmo tempo, torna-se possível atacar os adversários sem a comparação do horário eleitoral. Raramente a Justiça Eleitoral remove uma publicação”, acrescenta.

De acordo com Cenci, outro fenômeno é a fidelização do eleitor dentro de uma “bolha”, na qual os eleitores são alimentados com narrativas que os tornam “consumidores e divulgadores desse conteúdo”. “Muitas notícias falsas contam com a plena convicção dos militantes. Cito o caso, em eleições passadas, da tese de que as igrejas seriam fechadas”, exemplifica.

Para o professor, a política, que deveria ser um espaço de escolha racional, tem se transformado cada vez mais em um campo de “militância emocional e irracional”.

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