Brasília - A discussão sobre o aumento dos salários dos deputados e senadores por pouco não transformou a solenidade oficial da entrega da reforma sindical ao Congresso num fiasco. O ministro do Trabalho, Ricardo Berzoini, o chefe da Secretaria de Coordenação Política e Assuntos Institucionais da Presidência da República, Aldo Rebelo, e os presidentes de quatro centrais sindicais e cinco confederações de empresários esperaram pelo presidente do Congresso, senador Renan Calheiros (PMDB-AL), no gabinete dele, por mais de duas horas. Calheiros não compareceu e o atraso provocou a ira dos sindicalistas, que vaiaram a chegada do presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PP-PE), ao Auditório Nereu Ramos, para onde estava marcada a cerimônia.
''Eles preferem discutir o aumento do próprio salário'', disse o presidente da Social Democracia Sindical (SDS), Enilson Simão de Moura, mais conhecido como ''Alemão'', enquanto se dirigia para o local da solenidade. O presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva, o Paulinho, disse que o episódio era um ''desrespeito aos trabalhadores'', que desde o início da tarde lotavam o auditório. Berzoini não disse nada, mas era visível o constrangimento. As audiências para a solenidade foram acertadas com antecedência, com o governo empenhando-se em demonstrar para os parlamentares a prioridade que a reforma tem na pauta de votações deste ano.
As vaias a Severino, rapidamente, viraram aplausos, quando, depois de pedir desculpas pelo atraso, ele prometeu não poupar esforços para a aprovação do projeto ''no menor espaço de tempo possível''. Severino afirmou aos sindicalistas que eles terão nele ''um aliado na defesa dos seus direitos''. Procurando não polemizar, o ministro do Trabalho disse que uma nova visita seria marcada com o presidente do Congresso.
Na entrega oficial da reforma sindical, Berzoini reconheceu que a proposta de emenda constitucional (PEC) encaminhada não era a ideal. ''Essa proposta é resultado do consenso, da transigência das partes. Todos abriram mão de um pedaço para viabilizar um projeto que pudesse chegar ao Parlamento'', disse.
O ministro declarou acreditar que, a exemplo da reforma da Previdência, a sindical possa ser discutida e aprovada até o fim do ano. ''Podemos dar esse presente de fim de ano para o povo brasileiro.'' O presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Luiz Marinho, defendeu a representação no local de trabalho garantindo que contribui para evitar que o conflito cresça e estoure na Justiça. ''As pessoas que são contra são oportunistas, pois sobrevivem às custas dos trabalhadores. É claro que elas não querem mudanças'', disse. Mesmo posicionamento foi defendido por ''Alemão''. ''Sindicatos de fachada, que não defendem os trabalhadores, humilham-nos a todos'', declarou. Paulinho disse que toda a reforma foi construída com o objetivo de fortalecer os sindicatos e a negociação coletiva. ''Com o sistema que vigora hoje, o sindicalismo perde força e representatividade a cada dia'', observou.

mockup